Com o crescimento do capitalismo à escala global e o livre mercado, com aumento desenfreado dos níveis de consumo, começa a ser dada crescente atenção à dignidade da pessoa humana. Se, por um lado, o crescimento empresarial tem criado postos de trabalho, o grande desenvolvimento tecnológico e robótico mais recente tem trazido desemprego, pela dispensa de empregados, antes úteis para certas funções. Tal resulta na cada vez maior exigência de diferenciação profissional, emergindo, lado a lado, o egoísmo, a competitividade e a ambição desmedida por bens e capital
POR JOANA BENTO RODRIGUES

“O trabalho pertence à condição originária do homem
e precede a sua queda;
não é, portanto, nem punição nem maldição.”
(Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 256)

Contextualização

A forma como o trabalho humano é percebido alterou-se ao longo da História. Nas sociedades da Antiguidade Clássica, o trabalho físico ou braçal era incumbência dos escravos e o ócio era tido como ideal dos cidadãos (quem possuía propriedade e riqueza), por permitir o cultivo de virtudes. Persistindo a escravatura, na Idade Média, o conceito de trabalho passa também a incluir a actividade doméstica e os ofícios (transmitidos de geração em geração) e, com a Reforma Protestante (sec. XVI), passa a ser entendido como meio de salvação, em contraste com a condenação do ócio. No Renascimento, a par da percepção do domínio do Homem sobre a Natureza, o trabalho é encarado como libertação e assiste-se à ascenção da burguesia, com o mercantilismo e a progressão tecnológica (XVIII). A Revolução Industrial traz a invenção da máquina a vapor, a vida laboral deixa de se confundir com a vida doméstica e emergem os empregados fabris que, auferindo baixos rendimentos e incapazes de suprir as necessidades básicas, despertam as primeiras preocupações sociais, com a Igreja Católica a desempenhar um importante papel nesse contexto. Mas é apenas no séc. XX que surge a ideia de orientação vocacional e da necessidade de realização e de satisfação pessoal, passando o trabalho a ser visto não apenas enquanto exigência para a subsistência, mas também enquanto vocação do Homem.

A concretização da pessoa humana no trabalho surge da necessidade e apelo ao desenvolvimento pessoal (incluindo imaginação, criatividade e memória), da aspiração a fazer parte da Criação e da procura de recompensa pelo esforço e dedicação, para uma vida digna própria e da família, proporcionando a conquista de propriedade privada e a concretização alguns sonhos e ambições. E mesmo que, num cenário de monotonia laboral, arrastada ao longo de anos, o Homem é convidado a desenvolver virtudes no trabalho, como rectidão, obediência, honestidade, humildade, cumprimento do dever, responsabilidade, justiça.

Neste domínio, e excluindo a condição de “trabalhador por conta própria” (intencionalmente não abordada neste documento), o trabalho envolve duas partes que se complementam e que devem colaborar em união: o empregador, que providencia trabalho e paga salário; e o empregado, que desenvolve funções laborais para as quais é contratado. Numa perspectiva marxista, opondo classes, a linguagem tendenciosa comum refere-se-lhes, frequentemente, como “patrão” e “trabalhador”, carregando a ideia falaciosa de que o primeiro não trabalha e apenas explora. Mais recentemente, a par do politicamente correcto e da revolução social e cultural por via da linguagem, num mundo globalizado, a palavra “empregado” passou a ser substituída por “colaborador”, conceito que também se rejeita neste texto, pelo apontado.

A relação entre empregador e empregado assume particular relevo com o eclodir da Revolução Industrial. Assistindo-se cada vez mais à exploração do Homem no contexto laboral, a 15 de Maio de 1891, o Papa Leão XIII publicou a renomada Encíclica Rerum Novarum, onde pode ler-se: “de nada serve o capital sem trabalho, nem o trabalho sem o capital”. O Papa vem, assim, alertar para a necessidade do respeito pela dignidade do Homem no trabalho, do papel da família, da propriedade privada e sua relação com o Estado, condenando o próprio comunismo, mas exaltando a promoção da concórdia das “classes”, a par de preocupações sociais, não apenas dos operários, mas também do patronato.

Trabalho e Globalismo

Com o crescimento do capitalismo à escala global e o livre mercado, com aumento desenfreado dos níveis de consumo, começa a ser dada crescente atenção à dignidade da pessoa humana. Se, por um lado, o crescimento empresarial tem criado postos de trabalho, o grande desenvolvimento tecnológico e robótico mais recente tem trazido desemprego, pela dispensa de empregados, antes úteis para certas funções. Tal resulta na cada vez maior exigência de diferenciação profissional, emergindo, lado a lado, o egoísmo, a competitividade e a ambição desmedida por bens e capital.

Na entrevista “Felicidade sem utopia”, de Laurinda Alves a Henrique Rojas, o psiquiatra dedicado ao estudo da felicidade refere: “Hoje [na vida profissional] há dois extremos: as pessoas que não têm trabalho e as pessoas que só têm tempo para trabalhar e a ideia é tentar viver num ponto intermédio.” Ou seja, se o desemprego é preocupante, por privar as pessoas da sua realização profissional, pessoal e familiar, e pôr em risco a segurança financeira, o apelo ao sucesso no ambiente laboral tem convertido o Homem do Ocidente em escravo do trabalho e vítima, não só de terceiros, mas de si próprio. As horas e dias de descanso, antes também dedicados às artes, ao enriquecimento cultural, à reflexão filosófica ou ao culto religioso, passaram a ser substituídas por mais horas de trabalho “voluntário”, ocupadas frequentemente no próprio lar, em frente a um ecrã de computador, diminuindo o tempo e espaço que deveriam estar reservados para a família, para a comunhão consigo e com os outros, para o estudo e silêncio, favorecedores do crescimento da vida interior.

Isto é, esta progressão laboral é frequentemente conseguida à custa do isolamento e embotamento, com perda de humanidade e compreensão para com o próximo. Basta atentar a jovens gestores que, formatados desde cedo nessa cultura académica, gerem empregados em folhas de Excel, incapazes de olhar e compreender o que os move e inquieta, quais peças de xadrez que se alocam “ali e acolá”, consoante o maior interesse do Conselho de Administração, que dita objectivos a cumprir. Daqui resulta a frustração dos empregados que, apesar de se sentirem desesperançados e até despeitados, se vêem obrigados a manter o posto de trabalho por necessidade, vivenciando a angústia diária de não conseguir dar resposta a áreas da vida pessoal e aspirações próprias, caindo no desânimo e, não raras vezes, em depressão e ansiedade, destrutivos da pessoa humana.

Qual ciclo vicioso, tal desmotivação não se traduz na intencionada melhoria da produtividade, indo contra o próprio interesse do empregador. Talvez seja esta a exploração laboral do século XXI: o total desprezo pela dimensão subjectiva e transcendente do Homem, antes respeitada no contexto da sua vivência religiosa e hoje em dia menosprezada. Assiste-se, portanto, a duas realidades no ambiente laboral: por um lado à idolatria do trabalho e, por outro, à submissão ao trabalho, de forma desinteressada, por necessidade.

Dimensões do Trabalho

É, pois, pertinente abordar as dimensões objectiva e subjectiva do trabalho em ambos os sujeitos (empregador e empregado). A primeira diz respeito a tudo o que pode ser medido e objectivado, desde a produção, qualidade e resultados, bem como horário, condições laborais, salários, férias, protecção da doença, etc. A dimensão subjectiva relaciona-se com a satisfação e concretização da pessoa e tem sério impacto no desenvolvimento social, familiar, cultural e moral, fundamentais no amadurecimento da personalidade e bem-estar.

Assim, o empregador espera do empregado responsabilidade, honestidade, cumprimento e empenho, bem como disponibilidade e compreensão em situações pontuais de maior exigência, enquanto zelo para fazer prosperar a estrutura onde se integra. O empregado, para além de um salário justo e apropriado ao ofício, que proporcione condições de vida condignas para si e para a sua família, aspira também ao desenvolvimento e reconhecimento dos seus talentos e capacidades, com valorização do seu esforço.

Este reconhecimento não tem de ser apenas traduzido na progressão e rendimentos (oportunos enquanto incentivo), mas também em benefícios não remuneratórios (folga, descanso, adaptação do horário laboral às condições de vida pessoais e familiares, etc.) e elogio e gratulação por quem gere. E é desta simbiose, deste entendimento, fundados na confiança e responsabilidade mútuas, que surge a realidade laboral mais profícua na produção de resultados e no bem-estar social. Não acontece a exploração do indivíduo e cada participante é tratado como ser humano que, na sua dignidade, está a desempenhar uma função que complementa a de outros, para construir e fazer crescer projectos, permitindo o sustento e a melhoria das condições de vida.

Trabalho e Família

Insistindo na dimensão subjectiva, importa perceber a importância da Família na concretização do Homem, porque estritamente interligada com o Trabalho.

A Família é considerada célula base da sociedade porque é o lugar primário da humanização da pessoa, onde é chamada à comunhão e solidariedade, num espaço onde pode desenvolver as suas potencialidades e tornar-se consciente da sua dignidade. Na Família, na qual existe uma clara hierarquia, são passados o sentido de justiça e respeito pelos direitos e deveres recíprocos, são transmitidos os valores culturais éticos, sociais e religiosos e, embora distintos na sua individualidade, os membros são unidos num espírito de entreajuda. Ora, se esta realidade da Família vai contra a mentalidade marxista, ela não é mais amiga do liberalismo.

Por via do marxismo, as propostas sociais focam-se na matéria e não na pessoa humana. Assim, ao propor o colectivismo e igual distribuição de bens, esta ideologia despreza as diferenças e aspirações próprias de cada indivíduo, nomeadamente a de constituir família, e nega-lhe a sua dignidade, tornando-o igual aos demais, e não complementar. Por outro lado, contrariamente ao ambicionado e proposto por esta ideologia, quando as comunidades respondem primeiramente às necessidades das famílias e não ao Estado, este perde autoridade e influência.

Também o liberalismo não tolera a Família porque, por exigir tempo e dedicação, opõe-se aparentemente à maior produtividade do indivíduo (quer no papel de empregador, quer de empregado), sendo vista como um travão ao crescimento económico. Acresce que a competitividade e o egoísmo não são “devidamente” aprendidos nesse berço de vida, amor e colaboração que é a Família, acabando por não “inspirar” na prática profissional. E sentindo-se apoiado fora do ambiente laboral e menos movido pelo sentimento de inveja, o indivíduo é menos corruptível e menos sujeito a aliciamentos, sendo por isso menos útil, numa perspectiva utilitarista de procura desmedida de lucro.

Assim, a família é propiciadora de liberdade para o indivíduo e para as próprias comunidades, travando abusos de poder, quer estatais, quer empresariais.

Trabalho e Propriedade Privada

Quanto à propriedade privada, ela constitui um direito natural, porquanto o Homem dispõe dos bens da natureza, transformando-os e criando novos bens. A propriedade é, na prática, o resultado visível do trabalho e o indivíduo pode, assim, dispor livremente do seu salário, enquanto retribuição pelo seu esforço. Por isso, a colectivização proposta pela ideologia socialista é tão atentatória da dignidade humana, ao negar a possibilidade de converter o trabalho e empenho em frutos, tornando de todos o que diria respeito a um. Certo é que a Igreja Católica propõe “o destino universal dos bens”, mas contrariamente à referida distribuição igualitária e imposta, tal deve resultar do equilíbrio entre a recompensa e a solidariedade. Por sinal, esta solidariedade é aprendida sobretudo no seio familiar, onde o Homem é chamado a compreender o outro e partilhar voluntariamente os seus bens (particularmente quando em excedente), enquanto seu bom uso, para ajudar o próximo nas suas necessidades e em momentos de tribulação.

Conclusões

Com o passar das últimas décadas e conquistas progressivas de direitos laborais, regulados e vigiados, e com o respeito pelo próprio tecido empresarial, enquanto criador de riqueza e de postos de trabalho, alcançou-se, no Ocidente, e em particular na União Europeia, um certo equilíbrio.

Com o crescente liberalismo, percebe-se que não apenas o bem-estar, mas o próprio sucesso económico das sociedades, fica aquém do possível, por ambição desmedida, egoísmo e famílias enfraquecidas. É cada vez mais evidente que a colaboração, com potenciação mútua e genuíno trabalho de equipa em complementaridade, contribui para maior prosperidade empresarial e social, e que a família, para além de propiciar apoio nas dificuldades, também ela auxilia na progressão profissional e construção de carreiras de sucesso. Ou seja, o trabalho e a própria sociedade, em geral, beneficiam daqueles que são os valores assimilados na vivência familiar: relações sólidas e cultura de entreajuda.

Por seu turno, o respeito pela propriedade privada e a autonomia das comunidades, independentes de um Estado que se pretende apenas regulador, supletivo e subsidiário, propiciam o desenvolvimento de políticas e instituição de medidas que visem a dignidade dos cidadãos, com igualdade de oportunidades.

Assim, no Trabalho, a pessoa humana deve constar no centro, enquanto fim e não apenas enquanto meio. A cultura ocidental, fundada na ordem e na moralidade, banhadas pela ética judaico-cristã, tem mostrado que foi este reconhecimento da dimensão humana no Trabalho que conduziu a feitos extraordinários, desde logo sociedades prósperas, desenvolvidas, pacíficas e capazes de dar resposta aos seus próprios problemas, contribuindo para a vida e felicidade dos cidadãos. Numa altura em que se questionam esses mesmos valores, é imperativo que o Ocidente olhe para si e não abdique do que tornou esta civilização na mais evoluída de todos os tempos.

NOTA: A autora não reconhece o AO 1990.

Bibliografia:

Compêndio da Doutrina Social da Igreja, Libreria Editrice Vaticana, 2004, www.vatican.va.

– João Paulo II, Papa. Carta Encíclica Laborem Exercens, 14 de Setembro de 1981, www.vatican.va.

– Leão XIII, Papa. Carta Encíclica Rerum Novarum, 15 de Maio de 1891, www.vatican.va.

Joana Bento Rodrigues

43 anos, católica, casada, mãe de quatro filhos. Médica desde 2009 e especialista em Ortopedia desde 2016, pelo Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Founding Partner da International Broker Business Services (IBBS). Integrou a Comissão Executiva da Tendência Esperança em Movimento (corrente de opinião Democrata Cristã do CDS) e é actualmente Vice-Presidente do Partido Nova Direita.

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