Há pouco tempo, numa noite de fim de semana sem programa em que me apanhei sozinho na sala, resolvi ver o filme Spotlight. Fiquei impressionado; e, como sempre acontece cada vez que vejo filmes que me marcam, fiquei a remoê-lo nos dias seguintes. Mas neste caso fiquei a remoer por ainda mais tempo uma cena do filme em particular
POR ANTÓNIO FONTES

Contexto rápido: Spotlight é um filme de 2015 que acompanha a equipa de investigação jornalística do jornal Boston Globe. Em 2001, o novo editor lê um artigo em que se afirma que o arcebispo de Boston sabia que um padre tinha abusado de crianças e que nada fizera a esse respeito.

O editor pede então à equipa de investigação do jornal – baptizada como Spotlight – para investigar o caso. O trabalho de investigação, levado a cabo pela equipa de quatro jornalistas e publicado numa longa série de artigos a partir de 2002, expõe o escândalo de abusos sexuais em Boston, com dezenas de padres suspeitos. O mal que há anos parecia invisível vem ao de cima e fica iluminado por um holofote demasiado forte para passar despercebido.

Na perspetiva do filme, fica óbvio que a invisibilidade deste mal decorre do sistema instalado. O sistema não é uma entidade abstrata: é a conjugação de intervenientes e de processos montados de tal forma que nem as vítimas, nem os advogados das vítimas, nem os advogados da Igreja, nem os membros do clero, nem a polícia, nem os tribunais, nem os jornais mostram à sociedade aquilo que tantos sabem (embora poucos, se é que alguns, conhecem a sua real dimensão).

Numa das últimas cenas do filme, no momento em que o primeiro artigo sobre o caso está prestes a ser impresso, Walter Robinson, o responsável da equipa Spotlight, admite perante o editor e o resto da equipa que, durante a investigação, ficou a saber, ou foi recordado, que um advogado lhe tinha enviado em 1993 uma lista de 20 padres abusadores sexuais, a que Robinson nunca dera seguimento. Esta revelação caiu(-me) que nem uma bomba. Foi a equipa de Robinson que durante largos meses, e contra quase tudo e quase todos, conduziu esta investigação. Foi o próprio Robinson quem recebeu em mãos, na sequência deste trabalho jornalístico, o Prémio Pulitzer de Serviço Público de 2003 (esta parte não aparece no filme).

Mas se recebeu uma lista dez anos antes, o que fez com ela? Pelos vistos, nada. Porquê? Porque não prestou atenção? Porque não quis saber? Porque não tinha os recursos necessário ou a equipa ideal para seguir a pista que recebeu? Porque não o ajudaria na carreira? Não sei. Não sabemos. Mas, na altura, também o mal lhe foi invisível, de alguma forma.

A cena não acaba ali. A revelação de Robinson gera mal-estar e tensão entre os presentes. O editor toma a palavra e diz: «É fácil esquecermo-nos de que passamos grande parte da vida às escuras. De repente acendem uma luz e há muita gente a apontar o dedo». Admito: eu quis logo apontar o dedo a Robinson por ele ter desperdiçado a oportunidade de mostrar este mal ao mundo logo em 1993. Mas isso não faz sentido. O Robinson de 1993 não foi pior nem melhor do que todos as outras pessoas que sabiam ou podiam saber do que se passava. Nada me pode levar a afirmar, a não ser uma tentativa forçada de auto-consolo, que se eu estivesse lá teria feito de forma diferente. O relevante é que o mal que lhe foi invisível durante anos tornou-se visível; por incentivo de outro – neste caso, o novo editor que vinha de fora do jornal e de fora da cidade – e por mérito do próprio Robinson e da sua equipa. O mal que lhe era invisível não o foi para sempre.

Não é só o essencial que «é invisível aos olhos». Também o mal o consegue ser. E enquanto o é, vai crescendo e prosperando. Quanto mal não estará mesmo à frente dos nossos olhos sem que o vejamos?

António Fontes

António Fontes é Director de Inovação no Activo Bank e membro da ACEGE Next

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