A decisão do governo sueco em optar por uma nova estratégia nacional de digitalização do sistema escolar para 2023-2027 veio colocar mais uma acha na fogueira no debate sobre qual a melhor forma de ensinar: a tradicional ou a digital. Pioneira na introdução de ferramentas digitais nas salas de aula, e depois de mais de uma década a utiliza-las, o país escandinavo vem agora dar um passo supostamente atrás no que respeita às certezas que tinha face a esta matéria. Não está sozinho, os alertas para que não se “hiperdigitalize” a educação vêm de vários lados, ao mesmo tempo que a maior parte dos planos de educação para o futuro defendam a crescente utilização deste tipo de ferramentas. A verdade é que a guerra entre defensores e críticos de ambos os sistemas tem cada vez mais batalhas
POR HELENA OLIVEIRA

“Há provas científicas claras de que as ferramentas digitais prejudicam, em vez de melhorarem, a aprendizagem dos alunos”, afirmou o Instituto Karolinska da Suécia numa declaração em Agosto último sobre a estratégia nacional de digitalização da educação do país.

“Acreditamos que o foco deve voltar a ser a aquisição de conhecimentos através de livros impressos e da experiência dos professores, em vez de se adquirir conhecimentos principalmente a partir de fontes digitais disponíveis gratuitamente que não foram verificadas quanto à sua exactidão”, afirmou o instituto, uma das maiores e mais respeitadas escolas de medicina da Europa e muito centrada na investigação.

E a verdade é que os receios deste prestigiado instituto foram ao encontro da decisão de Lotta Edholm, ministra da Educação da Suécia – que sempre foi bastante crítica relativamente ao uso generalizado da tecnologia nas escolas, contrariando por completo o plano educativo doa seus antecessores – que propôs uma reversão da estratégia digital da qual o seu país foi pioneiro desde os anos de 1990. É também de sublinhar que, em 2017, a Suécia lançou a sua Estratégia Nacional de Digitalização para o Sistema Escolar como parte de uma nova Estratégia Digital, cujo objectivo geral era que o país fosse “o melhor do mundo na utilização das oportunidades de digitalização”.

No mês passado, a ministra em causa anunciou numa declaração que o governo pretendia reverter a decisão da Agência Nacional de Educação de tornar obrigatórios os dispositivos digitais nos jardins-de-infância, tencionando ir ainda mais ir mais longe e acabar completamente com a aprendizagem digital para as crianças com menos de 6 anos. E, já em Dezembro de 2022 tinha manifestado as suas dúvidas num artigo em qual descrevia a utilização da tecnologia digital nas escolas suecas como uma “experiência” e exprimia o seu desagrado pela “atitude acrítica que considera casualmente a digitalização como positiva, independentemente do conteúdo”, levando à “marginalização” do manual escolar, que, segundo ela, tem “vantagens que nenhum tablet pode substituir”.

Desde há cerca de quinze anos que os ecrãs têm vindo a substituir progressivamente os manuais escolares na Suécia. A partir do ensino secundário, os alunos passam cada vez mais tempo em frente a computadores, geralmente fornecidos pela escola. Independentemente da disciplina, têm de se ligar à Internet para procurar informaçõe, fazer um trabalho ou rever as suas matérias.

Adicionalmente e ao longo de vários anos, a Suécia ponderou a hipótese de banir os livros físicos das escolas, com os proponentes a afirmarem que os estabelecimentos de ensino “precisavam de abraçar o futuro”. Durante anos, a Suécia e a Finlândia foram consideradas um sucesso no domínio da educação, mas os padrões começaram entretanto a baixar. Para além do declínio da compreensão da leitura, as competências em ciências e matemática têm também vindo a registar uma tendência decrescente.

Assim e a contribuir igualmente para a argumentação da ministra da Educação foram os resultados do último estudo internacional sobre Literacia em Leitura (PIRLS) que revelou que as crianças suecas estavam com mais dificuldades neste domínio. A percentagem de crianças de 10 anos com dificuldades de leitura aumentou de 12% para 19% em cinco anos, com a capacidade de compreensão da leitura das crianças suecas passar de “elevada” para “intermédia”.

Entretanto, o governo anunciou o mês passado que iria atribuir 60 milhões de euros no presente ano e 45 milhões por ano em 2024 e 2025, a fim de acelerar o regresso dos manuais escolares às escolas. “Isto faz parte da recuperação da leitura nas escolas, em detrimento do tempo de ecrã”, explicou a ministra em declarações à Associated Press, afirmando que o objectivo é garantir um livro por aluno e por disciplina.

Tal “garantia” faz lembrar, apesar de os tempos serem outros e de a ambição ser inversa, a missão da Microsoft nos anos de 1980 quando Bill Gates e Paul Allen estabeleceram como objectivo do gigante informático ter-se um computador em cada secretária e em cada casa.

A ordem é para avançar com a digitalização

Como sabemos, os múltiplos progressos nas tecnologias digitais, o “empurrão” dado pela pandemia da Covid-19, a par da certeza de que a nossa sociedade está e continuará a estar hiper-digitalizada, fizeram com que as ferramentas digitais para uso escolar passassem a ser uma quase banalidade em muitos sistemas de ensino, mantendo-se como objectivo a atingir nas regiões mais infoexcluídas.

Por exemplo, “o Plano de Acção para a Educação Digital (2021-2027) é uma iniciativa política renovada da União Europeia (UE) que define uma visão comum de uma educação digital de elevada qualidade, inclusiva e acessível na Europa e tem como objectivo apoiar a adaptação dos sistemas de ensino e formação dos Estados-membros à era digital. O Plano de Acção, adoptado em 30 de Setembro de 2020, é um apelo a uma maior cooperação a nível europeu em matéria de educação digital a fim de dar resposta aos desafios e aproveitar as oportunidades ligadas à pandemia de COVID-19 e de oferecer oportunidades à comunidade educativa (professores e estudantes), aos decisores políticos, ao meio académico e aos investigadores a nível nacional, da UE e internacional”.

Mas a verdade é que também Portugal parece estar a pesar os prós e os contras desta aceleração digital em meio escolar. O ministro da Educação João Costa fez saber há poucos dias que a introdução de manuais escolares digitais, uma das medidas do programa do PS para o sector educativo que estava prevista para o presente ano lectivo, será travada. É que o ministro não quer precipitações e prefere acompanhar o que se vai passando lá fora, apesar de o projeto-piloto abranger já, em 2023, 21 mil alunos.

A nível global, a rápida adopção de ferramentas de aprendizagem digital também suscitou a preocupação da agência das Nações Unidas para a Educação e Cultura. Num relatório publicado no mês passado, a UNESCO lançou um “apelo urgente à utilização adequada da tecnologia na educação”. O relatório insta os países a acelerarem as ligações à Internet nas escolas, mas, ao mesmo tempo, adverte que a tecnologia na educação deve ser implementada de forma a nunca substituir o ensino presencial orientado por professores e a apoiar o objectivo comum de uma educação de qualidade para todos.

Impossível afirmar de que lado está a razão

Assim e a acompanhar as últimas notícias, o debate que existe há anos sobre que tipo de ensino será mais eficaz – o digital ou tradicional – está cada vez mais aceso.

De uma forma geral, por um lado é fácil encontrar muitos estudos nas áreas da pediatria, da neurociência e da psicologia (a maioria dos quais não está envolvida na investigação em sala de aula) que alertam para os possíveis danos que podem resultar da utilização excessiva das tecnologias digitais. Estes estudos conduzem a preocupações sobre o “tempo de ecrã” das crianças e apoiam os apelos para restringir e proibir o acesso aos dispositivos. Mas, e por outro lado, existem muitos outros estudos de pedagogos, tecnólogos educacionais e especialistas em educação que ilustram os benefícios que podem resultar do facto de as escolas apoiarem as crianças na utilização criativa, experimental e inovadora da tecnologia digital. Estes estudos apoiam os apelos para que as escolas se concentrem no desenvolvimento de novas gerações de cidadãos e trabalhadores aptos a liderar numa era digital.

Voltando à Suécia, e no âmbito da nova estratégia nacional de digitalização do sistema escolar para 2023-2027, foram citados vários estudos em prol desta travagem brusca e que não deixaram de surpreender muitos especialistas da área da educação.

Numa das investigações, centrada na utilização simultânea do digital e do tradicional, como a mistura da utilização de tablets com aulas de física ou matemática, concluiu-se que existem interferências negativas na atenção, na memória, nas médias das notas, no desempenho nos testes, na compreensão da leitura, na tomada de notas e na auto-regulação dos alunos. Estes efeitos foram demonstrados durante as actividades na sala de aula (em grande parte, palestras) e enquanto os alunos estudavam.

Em complemento, a Suécia afirma também que os dados científicos empíricos acumulados e a experiência comprovada mostram que as crianças pequenas desenvolvem melhor as competências básicas, como as capacidades de relacionamento, atenção e concentração e, mais tarde, a capacidade de ler, escrever e contar através de “actividades analógicas em ambientes analógicos”, ao mesmo tempo que a Sociedade Sueca de Pediatria comparou a digitalização para os mais novos à aprendizagem de conduzir um carro antes de se aprender a andar ou andar de bicicleta.

Como em todos os debates, existem igualmente os cépticos que afirmam que proibir os ecrãs e os tablets pode ser contraproducente, uma vez que a digitalização é cada vez mais frequente fora do ambiente escolar e, além disso, os peritos reconhecem que pode ser prematuro avaliar os resultados da redução da dependência digital, uma vez que não há precedentes de países que tenham adoptado tais medidas e depois investigado exaustivamente as suas consequências. Desta forma, é esperar para ver.


Numa perspectiva geral, quais são os prós e os contras de cada uma das metodologias de ensino?

A favor: A utilização da tecnologia pode entusiasmar os jovens estudantes

Actualmente, não é invulgar que muitas crianças em idade escolar tenham tido o primeiro contacto com dispositivos tecnológicos quando eram ainda mais pequenas. Como tal, os alunos tendem a associar computadores portáteis, tablets e outros dispositivos semelhantes a diversão e entusiasmo. Consequentemente, a tecnologia na sala de aula não só ajuda a captar a atenção e o entusiasmo enquanto ali estão, como também revigora as experiências de aprendizagem tradicionais.

Contra: A utilização da tecnologia pode distrair os alunos

Os computadores podem dar às crianças acesso a conteúdos ou informações inadequados se não forem adoptadas as medidas de segurança adequadas. Os bloqueadores de sítios Web, os filtros de Internet e uma supervisão atenta podem ajudar a evitar que as crianças sejam expostas a esses conteúdos, e as lições de “netiqueta”, ou utilização correcta da Internet, podem incutir bons hábitos e bom senso na Web desde tenra idade.

A favor: Prepara os alunos para o futuro

O nosso mundo está a tornar-se cada vez mais dependente da tecnologia e ter uma boa compreensão dos dispositivos tecnológicos comuns e das suas utilizações é fundamental para preparar as crianças para o sucesso no ensino primário e secundário, e para toda a sua vida futura. Nunca é demasiado cedo para que as crianças comecem a desenvolver competências e conhecimentos que possam levar para as suas carreiras educativas e profissionais. Neste sentido, a exposição à tecnologia no ensino básico é uma óptima maneira de começar a construir uma base para o sucesso.

Contra: Dificulta as oportunidades de socialização das crianças

Estudos têm sugerido que são cada vez mais os indivíduos em toda a sociedade que estão a ficar desligados e isolados devido às ligações que a tecnologia proporciona através das redes sociais. As crianças pequenas que passam mais tempo a utilizar dispositivos podem não passar tanto tempo a interagir com os seus pares, o que pode afectar o seu crescimento social e emocional. Para atenuar este risco, é importante moderar o “tempo de tecnologia” de modo a permitir que as crianças interajam socialmente com a família e os amigos.

A favor: A tecnologia incentiva a aprendizagem espontânea

O acesso à tecnologia pode ajudar as crianças a aprender a investigar temas que consideram interessantes. Para as gerações mais velhas, a informação não estava tão prontamente disponível e exigia que as crianças tivessem acesso aos recursos tradicionais. Actualmente, porém, as crianças têm um mundo de informação na ponta dos dedos. Quando utilizada de forma adequada e monitorizada, a tecnologia pode complementar a aprendizagem dentro ou fora da sala de aula, permitindo que as crianças pesquisem os temas que lhes interessam – uma aula sobre dinossauros, por exemplo, pode ser complementada por um vídeo do YouTube ou por uma visita de estudo virtual a um museu de história natural.

Contra: A tecnologia pode desencorajar a criatividade

Muitos jogos e actividades baseados na tecnologia são “pré-fabricados”, permitindo que as crianças completem as actividades sem terem de resolver problemas de forma criativa e imaginativa. No entanto, existem igualmente muitos jogos que promovem o desenvolvimento criativo e as capacidades de resolução de problemas, ao mesmo tempo que servem como uma actividade divertida a solo ou em grupo. A escolha destes últimos e fornecer uma vasta gama de outras ferramentas de aprendizagem, como por exemplo materiais artísticos, garantirá que beneficiam do seu tempo de brincadeira de uma forma segura e construtiva.


Fonte: The Pros and Cons of Technology in Education

Foto: © Firmbee.com/Unsplash.com

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