Será celebrado no dia 03 de Dezembro e tem como objectivo “contrariar” – ou compensar – o consumo desenfreado que caracteriza a Black Friday e a Cyber Monday. Ou seja, depois de comprar, a ideia é doar, seja dinheiro, tempo, bens ou talento a uma causa com a qual nos identificamos. Todos podem – e devem – participar naquele que é um movimento global de generosidade e solidariedade, presente em mais de 70 países e ao qual Portugal se junta pela primeira vez. Em entrevista ao VER, a responsável pela Giving Tuesday, Sofia Mascarenhas, explica tudo o que é preciso saber sobre este dia especial
HELENA OLIVEIRA

  • Quando, por que razão e pela mão de quem surgiu o movimento GivingTuesday?

O GivingTuesday foi lançado em 2012, pela Fundação das Nações Unidas e pelo 92StreetY, e conta com o Leadership Support da Fundação Bill & Melinda Gates. Surgiu como um dia para toda a gente doar, em resposta a dois momentos de consumo intenso, o Black Friday e o Cyber Monday. O GivingTuesday é celebrado internacionalmente, sempre na primeira 3ª feira a seguir a estes dois eventos.

Foi uma experiência lançada para responder a perguntas como: “Conseguimos utilizar as redes sociais para inspirar e propagar a generosidade, tornando a doação viral?” “Conseguimos inspirar-nos uns aos outros, falando das causas que nos tocam?” A resposta global tem sido afirmativa e estamos certos que em Portugal também irá ser.

A ideia surgiu de Henry Tims, co-autor do best-seller “New Power” e Asha Curran (actual CEO do GivingTuesday) adorou logo a ideia, que foi lançada em dois meses. E, de um momento para o outro, vários países começaram a levantar a mão e a querer aderir ao movimento, levando a que hoje seja um movimento verdadeiramente global.

  • Qual a principal mensagem que o movimento deseja transmitir?

Este movimento tem mostrado, ao longo dos anos, que a solidariedade e a generosidade são valores globais que não conhecem fronteiras e, por isso, temos uma oportunidade sem precedentes de os escalar em todo o mundo.

E num mundo em que nos sentimos cada vez mais desconectados – quem de nós não acha que passamos demasiado tempo nas redes sociais? – e numa altura em que se aproxima o Natal, pretendemos utilizar essas mesmas redes sociais para nos pôr a falar daquilo que realmente importa, para nos ligar uns aos outros, para propagar empatia.

A nossa principal mensagem é a de que todos nós temos algo para dar e que todos, mas todos os contributos fazem a diferença. Um exemplo maravilhoso ocorreu nos bairros desfavorecidos de Nairobi, onde crianças pintaram pedras com mensagens de boa vontade e esconderam-nas para que outras pessoas as encontrassem e estas pudessem alegrar o seu dia.

O importante é participar, pois a soma de cada contributo, por simbólico que às vezes nos possa parecer, vai fazer uma grande diferença e gerar um grande impacto!

No fundo, o que queremos dizer é que todos nós temos nas nossas mãos o poder de fazer a diferença na vida de alguém. Porque não o faríamos? Vamos todos dar para mudar e, sim, ainda vamos a tempo de mudar.

  • Quem se pode juntar ao movimento e que tipo de contributo pode ser disponibilizado?

Este é um movimento da sociedade civil, é um movimento de todos para todos. O que pretendemos é que cada pessoa assuma o GivingTuesday como seu e o faça crescer, da forma que puder, e é por isso que os nossos logótipos estão disponíveis no website.

Neste dia, desafiamos todas as pessoas, empresas, escolas, universidades e qualquer outra entidade a participar, a agir, a apoiar as causas com que mais se identificam, porque há sempre uma causa que nos toca. Cada um apoia como entende ou pode, seja em dinheiro, em bens, talento ou tempo.

A nível internacional, muitas figuras públicas têm desempenhado um importante papel ao divulgarem e advogarem as causas que as sensibilizam, inspirando outros a envolverem-se também.

  • Em Portugal será a primeira vez que teremos um dia exclusivamente dedicado à generosidade e à solidariedade. Como surgiu a possibilidade de o País se juntar a este movimento mundial?

Sim, Portugal vai juntar-se pela primeira vez a milhões de pessoas no mundo inteiro num acto único de generosidade e solidariedade. Em todo o mundo, no mesmo dia.

Na realidade, a vinda para Portugal foi um feliz acaso. A pessoa responsável pela angariação de fundos nos Médicos do Mundo contactou, no ano passado, a equipa global para perceber como poderia angariar fundos através do GivingTuesday. Não estando o movimento em Portugal, o António Neiva foi convidado para o trazer e foi isso que aconteceu. Entretanto, um novo desafio profissional impossibilitava a dedicação que o lançamento do movimento exigia e, resumindo a história, lançaram-me o desafio. Não pude ficar indiferente, tinha que agir e aqui estamos nós.

Por outro lado, este é um movimento do qual Portugal tinha de fazer parte! Já demonstrámos inúmeras vezes a nossa generosidade em situações de emergência e estou certa que Portugal sentirá o mesmo que eu e que se irá deixar “contagiar” e aderir em massa neste dia. Juntos vamos causar impacto!

  • Como pretendem envolver a sociedade civil, as instituições sociais, as empresas e outras entidades neste dia?

Ao longo dos últimos meses, foi realizado um trabalho de apresentação do projecto junto de organizações, empresas, instituições de ensino, estabelecendo parcerias e envolvendo entidades que nos apoiam a fazer acontecer este dia.

Dezenas de empresas já demonstraram o seu interesse em participar e já contamos com mais de 100 organizações inscritas no website.

A partir de agora, vamos intensificar a comunicação nas redes sociais e não só. Vamos lançar a conversação nas redes sociais sobre o que realmente importa – o apoio às causas – e criar um efeito de “bola de neve” que irá crescer com as partilhas de todos nós e, desta forma, vamos inspirar-nos uns aos outros a participar. Sabemos que um apelo para uma causa, feito por de pessoas ou entidades que conhecemos e respeitamos, tem uma melhor resposta, e é esse o papel reservado a cada um: apoiar a causa que o toca para inspirar a sua comunidade a agir.

Por um lado, já começamos a ter as organizações a apelar a um apoio à sua causa no GivingTuesday, por outro, as empresas vão estar a divulgar quais as causas que vão apoiar neste dia. O GivingTuesday estará também presente com campanhas para dinamizar as redes sociais, o motor de tudo.

Como vimos acontecer nos anos anteriores, um pouco por todo o mundo, as redes sociais foram arrebatadas e uma enorme vaga de sensibilização contagiou as pessoas a agir, inspiradas pela positiva, pela esperança e vontade de fazer a diferença. É isto que queremos replicar este ano em Portugal também!

Para se ter uma ideia, em 2018, no Reino Unido, o movimento liderou as tendências no Twitter durante todo o dia e, em Espanha, foi tendência também no Twitter durante 11 horas, sendo estes apenas alguns exemplos próximos!

  • Um dos objectivos do movimento é desafiar as organizações sem fins lucrativos e com algum cariz de inovação social a experimentarem campanhas inovadoras de solidariedade. Tem conhecimento de alguma destas campanhas cujas acções tenham tido algum impacto em particular?

Este é, sem dúvida, um movimento inovador porque abraça todas as causas, é global e utiliza as redes sociais para “massificar” a filantropia e para a trazer para a mesa de todos nós. Serve, no fundo, para democratizar a filantropia.

E está claramente a trazer inovação social. Segundo dados do GivingTuesday Global, 82% das organizações inquiridas utilizaram o GivingTuesday para experimentar novas ideias e conceitos, 57% respondeu que o #GivingTuesday ajudou a sua organização a atingir uma nova audiência e 42% que o #GivingTuesday ajudou a melhorar as capacidades e competências da organização. O que demonstra bem a inovação e impacto no sector.

Os exemplos de inovação são inúmeros. Um dos primeiros, logo em 2012, aconteceu quando a organização Dress For Success alterou o GivingTuesday para GivingShoesDay. Foi a primeira a “brincar” com o nome, tendo apelado à doação de sapatos para mulheres, o que resultou no seu maior dia de doações de sempre.

  • Estamos a menos de um mês do dia 03 de Dezembro, a terça-feira que sucede à BlackFriday e à CyberMonday e que acolherá este “dia para dar”. Como é que as entidades participantes se deverão preparar até lá para que o seu impacto seja eficaz?

É verdade, já estamos em contagem decrescente, mas participar é simples. Lembremo-nos que nos EUA o movimento foi lançado em dois meses e teve resultados que surpreenderam todos.

No website www.givingtuesday.pt todos os participantes, sejam empresas, organizações, instituições de ensino, influencers, enfim, todos, têm acesso a materiais que os podem ajudar a preparar as suas campanhas, assim como o calendário, ideias e exemplos de iniciativas internacionais. Estes recursos tornam simples o planeamento das acções para o dia.

É também no website que vão estar os projectos que Portugal vai poder apoiar no dia em causa.

Por fim, a divulgação é o factor crucial – lembremo-nos que este movimento é sobre inspirarmo-nos uns aos outros – pelo que é importante ocupar as redes sociais, em crescendo, até ao dia em causa. A mensagem de todos será amplificada através das hashtags “#givingtuesdaypt” e “#daparamudar e pedimos que todos identifiquem, façam tag das nossas páginas nas redes sociais, para que possamos fazer eco dessas publicações.

Vamos juntar-nos ao resto do mundo e “tomar de assalto” as redes sociais para falar do bem.

  • Que tipo de apoios tem já o movimento em Portugal?

O movimento GivingTuesday Portugal conta com o apoio de parceiros como a Bayer (fundador), REN (impulsionador), Sair da Casca (advisor) e temos parcerias estratégicas com a CheeseMe, Claim, DoctorSpin, Escala3, FunnyHow, Infraestruturas de Portugal, PPL e TorkeCC.

O movimento é ainda apadrinhado por Fernanda Freitas, jornalista e activista dos direitos humanos.

  • Para além dos países “aderentes”, o movimento chega mais longe, a outros países. De que forma é que se organiza este “dar a outros”?

O GivingTuesday é, este ano, um movimento formal liderado localmente em 60 países, com actividades informais em quase todos os países e territórios do mundo.

Nos países onde o movimento está formalizado, e apesar da diversidade, temos uma rede próspera e altamente interligada. Comunicamos o ano todo – via WhatsApp, email, e em reuniões e convenções pessoais – sobre o progresso do movimento nos nossos países, lições aprendidas e melhores práticas descobertas. Os princípios informais que norteiam a rede são a generosidade, a transparência, o humor, a interacção, o reforço mútuo e o encorajamento.

Destaco o Global Leadership Summit, que ocorre todos os anos em Março e que é o momento em que todos os líderes mundiais se encontram presencialmente para fazer o kick off do ano e discutir temas relacionados com a evolução do movimento. É com um enorme prazer que anunciamos que, no próximo ano, o evento terá lugar aqui em Portugal!

Mas, de facto, o movimento não se fica por estes países. Há países onde são criadas iniciativas isoladas e, adicionalmente, é fácil compreender a propagação se pensarmos que, em Portugal por exemplo, vamos ter campanhas para apoio a Moçambique, país onde o movimento não está formalmente presente.

  • Que balanço pode ser feito relativamente às anteriores edições do GivingTuesday?

Os resultados do movimento são incríveis e é por isso que o que começou como um dia para qualquer pessoa, em qualquer lugar doar, é hoje o maior movimento de solidariedade e generosidade do mundo.

Em 2018, nos EUA apenas, foram doados online mais de $400 milhões a diferentes instituições de solidariedade e muito mais foi oferecido em horas de voluntariado, doações de alimentos, roupas e outros actos de generosidade. No Reino Unido, foram doados mais de £7,8 milhões. Desde o seu início, mais de 61.000 iniciativas solidárias foram apoiadas no GivingTuesday.

  • Que perspectivas têm para um GivingTuesday português?

Portugal já demonstrou muitas vezes quão solidário é, unindo-se de uma forma extraordinária pelas boas causas e, por essa razão, estamos confiantes que a primeira edição do GivingTuesday irá ter um grande impacto.

Neste momento já dezenas de empresas demonstraram interesse em participar e já mais de 100 organizações sem fins lucrativos aderiram. Há iniciativas criativas, inovadoras e tocantes a serem planeadas. Acredito que vai ser um dia muito inspirador e que nos vai encher a todos de esperança.

Só falta mesmo chegar o dia, para que todos assumamos o nosso papel cívico e demonstremos a nossa vontade de fazer a diferença e de provocar a mudança.

E este é apenas o primeiro ano. Acreditamos muito neste movimento e pretendemos, no próximo ano, chegar ainda melhor a todos os cantos do país e envolver todas as entidades da sociedade civil. Queremos que todos, em Portugal, assumam o GivingTuesday como nosso. É também nosso objectivo contribuir para a discussão global da filantropia e queremos, no próximo ano, desenvolver parcerias e aderir ao primeiro projecto colaborativo deste género, contando com a participação de mais de 60 empresas em todo o mundo para aprofundar o conhecimento sobre o comportamento de doar, não só no GivingTuesday, mas também nos outros dias do ano.

Editora Executiva