A maioria das empresas está a adoptar políticas de regresso “forçado” ao escritório, o que está a colidir com as preferências dos trabalhadores. A tensão entre a eleição do trabalho remoto ou híbrido por parte dos empregados e a insistência do empregador no trabalho presencial continuará a ser um tema em debate em 2024. Principalmente porque as empresas que o estão a praticar não estão a sentir nem maior produtividade nem melhor performance financeira
POR HELENA OLIVEIRA

De acordo com um inquérito recente realizado pela Resume Builder e apesar da forte preferência de 68% dos trabalhadores a tempo inteiro por horários de trabalho híbridos, cerca de 90% das empresas [nos Estados Unidos] estão a avançar com planos de implementação de políticas de regresso [forçado] ao trabalho até ao final de 2024, o que revela uma forte desconexão entre os desejos dos trabalhadores e as exigências dos empregadores.

O mesmo inquérito revelou que 56% dos trabalhadores profissionais insistem na flexibilidade quando consideram a sua próxima oportunidade de emprego e, infelizmente, para os empregadores, tal poderá significar que os melhores talentos não voltarão a correr para os seus cubículos tão cedo.

Por exemplo e no seu mais recente esforço para levar os seus empregados de volta ao escritório, o Bank of America tem enviado cartas de aviso a que chama “cartas de educação” aos funcionários que se recusam a voltar ao trabalho presencial. Desde Outubro de 2022 que o gigante da banca, e à semelhança de muitas outras empresas, tem vindo a exigir que a maioria dos seus funcionários compareça no escritório pelo menos três dias por semana. Os que desempenham funções mais direccionadas para o cliente, como a banca de investimento, as vendas e a negociação, foram convidados a comparecer cinco dias por semana, ainda que com alguma flexibilidade.

Embora a maior parte dos empregados tenha cumprido a política de assiduidade no local de trabalho, o Bank of America continua a ver-se obrigado a enviar novos “avisos” – e novamente este ano – numa tentativa de fazer com que os retardatários regressem ao escritório. Depois de um aviso inicial, a carta de advertência mais formal. Mas ainda são muitos os trabalhadores que se recusam a voltar, garantindo, ao mesmo tempo, que as tarefas que exercem podem muito bem ser feitas a partir de casa, em nada diminuindo a sua produtividade. E se não são despedidos, tal deve-se ao seu valor enquanto empregados e à escassez de talento que continua a reinar numa boa parte do ambiente laboral.

No entanto e para quem se decidiu finalmente a voltar a enfrentar o trânsito e a perder o tão importante equilíbrio entre vida pessoal e profissional, poderá existir uma boa notícia. Quem voltar a ingressar nesta caminhada até ao escritório passa a ocupar uma melhor posição para uma promoção ou outros benefícios. De acordo com o economista de Stanford e co-director do Programa de Produtividade, Inovação e Empreendedorismo do National Bureau of Economics Research, Nick Bloom, e que muito tem escrito sobre esta enorme resistência em voltar ao trabalho presencial, o regresso ao escritório (RTO, na sigla em inglês para ‘Return To Office’) poderá dar uma maior visibilidade e vantagens adicionais aos trabalhadores junto dos seus superiores. E já são os vários os estudos que comprovam este benefício.

Mas a verdade é que quase quatro anos depois de a pandemia de coronavírus ter levado as pessoas a trabalhar a partir de casa em número recorde, os empregadores dos EUA e da Europa continuam a lutar para que as pessoas regressem ao escritório. A luta pelo poder entre os trabalhadores que exigem flexibilidade e as entidades patronais que tentam fazer com que os trabalhadores regressem ao regime presencial já deu origem a greves, a ameaças por parte das empresas e até a demissões em massa.

Para Prithwiraj Choudhury, professor da Harvard Business School que estuda o trabalho à distância, “algumas empresas estão a fazer ameaças veladas no que respeita a promoções e aumentos salariais (…) o que é lamentável porque este é o seu grupo de talentos, o seu recurso mais valioso”.

Gestores de topo querem recuperar controlo sobre os seus empregados

Adicionalmente, e de acordo com uma nova investigação da Katz Graduate School of Business da Universidade de Pittsburgh, a obrigatoriedade imposta pelas empresas para o regresso ao escritório não parece estar a ajudar o seu desempenho financeiro, ao mesmo tempo que torna os trabalhadores menos satisfeitos com os seus empregos.

O co-autor deste estudo e professor associado da Katz Graduate School of Business, Mark Ma, garantiu ao Washington Post que este regresso forçado torna os trabalhadores menos felizes e, consequentemente, menos produtivos e mais susceptíveis de procurar trabalho numa outra empresa com melhores políticas de flexibilidade.

De acordo com o estudo, muitos gestores de topo de empresas argumentam que trabalhar a partir de casa reduz a produtividade e prejudica o desempenho e os valores da empresa. No entanto, um grande número de trabalhadores opõe-se veementemente a este ponto de vista e defende que a eliminação de deslocações morosas e o aumento da flexibilidade contribuem efectivamente para uma maior eficiência no trabalho e um melhor bem-estar geral. Por seu turno, muitos especialistas consideram que os gestores estão a optar por este regresso obrigatório para recuperar o controlo sobre os trabalhadores e culpá-los como bode expiatório quando a empresa está a ter um mau desempenho.

A discórdia entre trabalhadores e gestores quanto à necessidade do regresso ao escritório atingiu um ponto de ebulição e tem dado origem a conflitos significativos no seio das empresas. Por exemplo, mais de 5 mil funcionários da Amazon assinaram uma petição em 2023 para expressar a sua oposição face à vontade do CEO Andy Jassy para que a maioria dos funcionários regressasse ao escritório. Assim, e entretanto, como as tensões causadas por esta obrigatoriedade se tornaram evidentes, existem também muitos CEOs que se estão a arrepender e a lamentar pelas decisões tomadas. De acordo com o estudo em causa, um inquérito recente revela que um grande número de gestores admite que, com uma compreensão mais abrangente dos dados relativos ao local de trabalho, teria adoptado por estratégias significativamente diferentes para os seus requisitos de regresso ao escritório. Além disso, cerca de um quarto dos gestores reconhece que estas decisões foram baseadas principalmente na intuição em vez de factos, o que levou ao ressentimento e à desilusão dos trabalhadores.

Assim, e em 2024, o que vingará?

De acordo com vários especialistas e para o ano presente, o local de trabalho continuará a ser marcado por uma luta permanente entre os empregadores que defendem a presença no escritório e os trabalhadores que não querem abrir mão da sua flexibilidade. No entanto e em muitos casos, os trabalhadores que ajustaram as suas vidas para o trabalho remoto ou híbrido sentem-se agora num preocupante estado de incerteza, tentando, por um lado, resistir ao regresso ao escritório e, por outro, temendo represálias por parte dos seus empregadores.

O cenário afigura-se confuso.

Se por um lado as empresas estão a forçar os seus empregados a regressarem ao trabalho presencial, por outro a flexibilidade continuará a estar na linha da frente dos debates sobre o local de trabalho, com uma forte procura por horários híbridos. Assim e sem existir uma coerência nos vários estudos e inquéritos que têm sido divulgados sobre esta contenda, ou as empresas continuarão a lutar “obrigando” os seus trabalhadores a regressarem ao escritório ou tanto os trabalhadores como as entidades patronais irão adoptar cada vez mais disposições de trabalho híbridas e flexíveis, permitindo que os trabalhadores remotos continuem a conciliar a sua vida profissional e pessoal e que os seus pares explorem outras oportunidades que, como acima referido, advêm do facto de estarem a trabalhar presencialmente, o que agrada em particular às chefias.

Por outro lado, e embora o trabalho remoto se tenha tornado uma pedra angular do cenário de trabalho moderno, não é possível negar que neste modelo subsiste um conjunto de desafios tanto para as empresas como para os trabalhadores. E, em 2024, as organizações continuarão a abordar activamente questões relacionadas com a colaboração remota, a coesão das equipas e os casos de burnout, que também continuam a existir.

No que respeita ao trabalho à distância, as plataformas de colaboração, as ferramentas de gestão de projectos e as actividades virtuais de formação de equipas estão a tornar-se mais sofisticadas, com o objectivo de recriar a energia colaborativa do trabalho presencial. As empresas estão também a explorar formas inovadoras de promover um sentimento de pertença e de comunidade entre os trabalhadores remotos, apostando em eventos sociais virtuais ou em programas de “orientação”, que visam estimular o espírito de equipa online.

Ao mesmo tempo, há um reconhecimento crescente de que o trabalho a partir de casa não é uma solução única para todos. Algumas pessoas prosperam num ambiente remoto, enquanto outros preferem a estrutura de um escritório tradicional. Por exemplo, e enquanto alguns empregados mais extrovertidos se sentem bem num ambiente de escritório, outros, mais introvertidos, podem preferir trabalhar de forma independente e nos seus próprios termos. Reconhecer e acomodar as necessidades individuais de cada colaborador através de um regime de trabalho flexível pode aumentar significativamente o empenho e o desempenho geral.

Não existem efeitos visíveis na produtividade e o talento pode fugir

Em 2024, parece continuar a ser necessário sublinhar que se muitos líderes empresariais estão a querer voltar atrás no tempo, a realidade é que uma quantidade significativa de empregados não está ou não vai ficar satisfeita com o facto de ter de abdicar da liberdade que os acordos de trabalho remoto ou flexível lhes proporcionaram.

A tentativa de forçar estes trabalhadores a regressar ao escritório não só corre o risco de alienar os actuais funcionários, como também pode afastar novos talentos. Por exemplo, um estudo publicado o ano passado pela Unispace revelou que 42% das empresas que forçaram os seus trabalhadores a regressarem ao escritório não só registaram um nível de desgaste dos trabalhadores superior ao previsto, como também 29% estavam a ter dificuldades em recrutar novos trabalhadores.

Parte da razão para a resistência reside no facto de estes regressos forçados ao escritório serem frequentemente apresentados como se fossem ajudar a melhorar a produtividade dos trabalhadores.

Embora existam algumas provas que sustentam este argumento (um estudo conclui que o trabalho remoto está associado a uma produtividade 10% inferior), existem igualmente provas do contrário, com outros estudos a sugerirem que os empregados trabalham mais horas em casa do que no escritório.

Assim, se em princípio não existe uma diferença significativa na produtividade, porquê forçar os empregados a trabalhar no escritório quando isso pode afectar negativamente o seu equilíbrio entre a vida profissional e pessoal?

Por outro lado, as organizações que tentam obrigar os trabalhadores a regressar ao escritório são percepcionadas como dando frequentemente maior ênfase à produtividade em detrimento do bem-estar e do equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Isto pode criar uma situação em que os trabalhadores se tornam menos empenhados e mais ressentidos, levando-os a desempenhar apenas o mínimo necessário nas suas funções e, potencialmente, a recorrer a um fenómeno conhecido como “despedimento silencioso”, termo cunhado o ano passado nos Estados Unidos.

Como sabemos, a pandemia de COVID-19 provocou mudanças significativas nos modos de trabalho e nas percepções que existiam sobre os mesmos. Mas a verdade é que as experiências passadas têm de ser reavaliadas para se adaptarem a esta nova era. Antes da pandemia, os trabalhadores não tinham, em geral, a possibilidade de trabalhar plenamente em regime de teletrabalho. Durante a pandemia, muitos trabalhadores que trabalhavam totalmente a partir de casa sofreram “distracções”, como conflitos familiares e responsabilidades de cuidados com os filhos, e só podiam comparar a sua experiência de teletrabalho com as suas experiências de escritório anteriores à pandemia.

No entanto, na era pós-pandémica, as atitudes dos trabalhadores em relação ao trabalho à distância estão a mudar significativamente, uma vez que aprenderam a ajustar com sucesso o seu ritmo de vida ao trabalho feito a partir de casa. E as empresas têm de ser muito cautelosas face às suas políticas laborais sob pena de não terem ganhos de produtividade e, mais preocupante ainda, poderem perder os seus melhores empregados, que estão prontos a mudar para uma outra organização que vá ao encontro dos seus desejos de maior flexibilidade.

Foto: © Unsplash.com/kate.sade

Editora Executiva

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