Num mundo marcado por desigualdades, avanços tecnológicos e desafios económicos, ainda há espaço para a esperança? Na sessão inaugural do VIII Congresso Nacional da ACEGE, e sob o tema “Construtores de Esperança”, João Pedro Tavares lançou esta e outras questões fundamentais sobre o papel da liderança empresarial na construção do futuro, sublinhando que a esperança é performativa, pois fortalece-se e confirma-se na sua vivência e que quem a cultiva espalha generosidade e encontra nela um ânimo renovado. Para o presidente cessante da ACEGE, a esperança faz também parte da matriz cristã de vida, “construindo, servindo e amando”
POR HELENA OLIVEIRA
Nota prévia: A ACEGE reuniu, no Centro de Congressos de Lisboa, cerca de 400 empresários e gestores para assistirem ao seu VIII Congresso Nacional. Durante dois dias, os participantes tiveram a oportunidade de assistir a diversos painéis com um elenco de oradores provenientes tanto da área da gestão como do meio académico, abordando o tema “Construtores da Esperança” em tempos de incerteza. A sessão de abertura contou – para além da intervenção de João Pedro Tavares, presidente cessante da Associação Cristã de Empresários e Gestores -, com a presença de D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa e de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, que também partilharam com a audiência as suas visões sobre a Esperança. Com um discurso inspirador, esteve também presente a jovem Elizabeth Shipeio, em representação dos Next, a geração mais nova dos associados da ACEGE.
O VER dará a conhecer, nesta e na próxima semana, um resumo das intervenções do congresso, o qual está igualmente disponível no canal de YouTube da ACEGE.
Neste primeiro artigo, damos a conhecer os principais pontos do discurso de abertura de João Pedro Tavares na sessão inaugural do congresso, depois de uma missa celebrada pelo patriarca de Lisboa, D. Rui Valério.
“Um líder que é sinal de esperança é humanista e tem convicções profundas”
João Pedro Tavares começou por explicar que organização deste congresso surgiu de um desejo genuíno de reflectir sobre o papel dos líderes empresariais na construção de um futuro mais justo e sustentável. No entanto, quando essa ideia foi concebida, não se previa o contexto político e económico desafiador que o país atravessa actualmente. Para o presidente cessante da ACEGE – quer terminou o seu mandato de nove anos, passando o testemunho a Patrícia Liz – este cenário confere ainda mais relevância à temática do evento pois, em tempos de incerteza, é fundamental que a liderança empresarial se afirme como um alicerce de esperança e transformação social, mesmo que o desafio seja ainda mais complexo.
Como explicou, “porque é um desafio enraizado na vocação e que, por isso mesmo, vai para lá das circunstâncias, do momento”, acrescentou ainda que “o exercício das nossas responsabilidades, como cristãos, que também são líderes empresariais, empresários, gestores, é o de uma nobre vocação e deve sempre ter como meta criar e distribuir valor de forma justa, defendendo a dignidade das pessoas e das famílias e promovendo o propósito enquanto finalidade das organizações”.
Afirmando que o lucro é, apenas e só, um meio absolutamente essencial para um fim maior, sublinhou também que, neste contexto, liderar é das mais responsabilizantes formas de serviço. “De facto, não somos donos de absolutamente nada, mas apenas administradores privilegiados do muito que nos é oferecido. E essa tomada de consciência promove maior responsabilidade”, declarou.
O orador enfatizou que o verdadeiro sucesso não está nos bens materiais, mas em como “assumimos a nossa responsabilidade sobre o que nos é dado”. Para João Pedro Tavares, a esperança não depende de um momento favorável ou de um optimismo cego, mas pode e deve ser cultivada em tempos de tribulação, onde a perseverança fortalece o carácter e gera uma esperança genuína, enraizada em Cristo. “Este tipo de esperança, longe de ser ilusória, é uma força que sustenta o líder e a sua comunidade, mesmo em tempos difíceis”, disse.
Antecipando os temas que iriam ser debatidos no congresso, a partir de testemunhos, estudos e reflexões na primeira pessoa, o presidente cessante da ACEGE interpelou também a audiência com algumas questões:
“Haverá esperança no futuro com os níveis de pobreza e discrepâncias que ainda se verificam? Haverá esperança com a adopção da tecnologia, da inteligência artificial ou da robotização? Como é olhada e estudada a esperança a partir da academia? Como convive a esperança com a ciência? E como é experimentada no quotidiano das empresas e no mundo do trabalho? Somos líderes orientados por um motor de esperança ou de insegurança? Somos líderes que unem ou que separam? É possível que haja esperança mesmo num despedimento ou numa doença? Como é tudo isto vivido e interiorizado?”.
A ACEGE e a Esperança como pilar da liderança empresarial
Para João Pedro Tavares, “um líder que é sinal de esperança é humanista e tem convicções profundas, o que lhe permite ser firme nas decisões e comprometido nas relações”. Tem visão, arrojo, capacidade de mobilização e cuida de tudo aquilo que lhe é dado. É ambicioso e corre riscos. Para além disso, “vive com propósito, no exercício de uma vocação, e tem o bem comum como finalidade”.
No que respeita ao propósito da ACEGE, destacou que “as nossas tomadas de posição sempre foram além da táctica do momento e da espuma do curto prazo, focando-se na promoção de uma economia do bem comum, na defesa da dignidade das pessoas e na protecção da ‘nossa’ casa comum”. Assim, e defendendo uma sociedade baseada na confiança, no respeito e no cumprimento de compromissos, o líder que esteve ao leme da associação na última década sublinhou que os programas que esta promove “são de enorme esperança, pois não são assistencialistas, mas transformadores a partir das empresas e das famílias”, contribuindo igualmente para a mudança de culturas empresariais e para a forma de actuação dos seus líderes.
A título de exemplo, referiu o Compromisso de Pagamentos Pontuais [Programa CPP], “reconhecendo que o seu incumprimento é um dos factores que trava o desenvolvimento económico e social e compromete a construção de relações de confiança”. Para João Pedro Tavares, a ACEGE deseja igualmente “inspirar um Estado que seja um verdadeiro parceiro, actuando com reciprocidade tanto na forma como paga quanto na forma como recebe.”
Continuando a enumerar os vários valores e boas práticas em que assenta a missão da ACEGE, o orador afirmou também que a associação reconhece que “a vocação e finalidade das organizações é mais do que o seu resultado financeiro, devendo por isso contribuir para uma sociedade que seja também ela Fratelli Tutti, assente na justiça social, na defesa da dignidade das pessoas” e que estas “sejam agentes activos de subsidiariedade e solidariedade, amigas das famílias, que abracem a certificação empresas familiarmente responsáveis [Programa efr] e partilhem as melhores práticas, para além de promoverem o equilíbrio, a harmonia e o crescimento familiar, bem como o desenvolvimento e a realização pessoal dos colaboradores, em ambientes de maior felicidade, sabendo que as pessoas mais felizes são mais comprometidas, mais solidárias e mais produtivas”. Também por isso, é compromisso da ACEGE trabalhar para uma sociedade mais justa fomentando “empresas sem pobreza”. Através do Programa Semáforo, explica, “os líderes empresariais passaram a medir a exposição à pobreza das famílias e dos seus colaboradores em termos financeiros, mas também no acesso à saúde, à habitação digna, à inserção comunitária, à mobilidade, à educação, entre outros factores”, sublinhado que a ideia é “sermos promotores activos do elevador social em conjunto com outros parceiros”.
“A esperança exerce-se na proximidade, na generosidade e no serviço”
A intervenção de João Pedro Tavares sublinhou assim a importância de uma cultura empresarial ética, onde a responsabilidade não se limita às decisões empresariais, mas se estende a uma ética pessoal que permeia toda a actuação do líder. A seu ver, as melhores práticas incluem a transparência, a verdade e o respeito por cada pessoa, criando relações de confiança e promovendo um ambiente de trabalho saudável e harmonioso.
Em jeito de conclusão, o orador apresentou ainda uma reflexão sobre a sociedade actual, caracterizada por um “ruído” constante, que dificulta a percepção dos sinais verdadeiros. Como afirmou, “a verdade é sinal, tal como a esperança ou a paz, enquanto a mentira é ruído, tal como a desesperança ou a guerra. Os que promovem a guerra são os desistentes destes caminhos de maior proximidade e convergência. São aqueles que apagam a esperança”.
Assim e como defende, para se ser um líder eficaz, é necessário estar atento aos sinais do momento, tomando decisões ponderadas e serenas, guiadas pela ética e pela verdade. “O líder que se deixa levar pelo ruído do momento torna-se agitado e errático, enquanto aquele que escuta os sinais da realidade transmite paz e clareza em suas acções”, afirmou também.
Insistindo na dicotomia entre ruído e sinal, o primeiro é “uma resposta táctica ao momento”, enquanto o segundo aponta para algo “maior e duradouro, construindo um futuro mais justo e harmonioso”.
Finalmente e em particular sobre o tema que orientou os dois dias de congresso, a visão de João Pedro Tavares é a de que “a esperança é algo que se projecta nos outros, é amiga da harmonia e convive com a confiança, no presente e no futuro. Exerce-se na proximidade, na generosidade e no serviço e vem acompanhada de resultados que são construtivos e que são eles mesmos bons sinais”.
“Se o melhor de mim mesmo não termina nos outros, isso não é esperança”, concluiu.
Nota: Para aceder à intervenção de João Pedro Tavares na íntegra, siga este link
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