Na adversidade, nasce a verdadeira esperança. Na sessão inaugural do VIII Congresso Nacional da ACEGE, D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa, destacou que a esperança não é apenas um refúgio nos tempos difíceis, mas uma virtude activa e transformadora. Inspirando-se na fé inabalável de Abraão, na resiliência de São Paulo e na mensagem de Jesus, lembrou que a esperança tem uma origem transcendente e, mais do que uma expectativa passiva, exige compromisso, acção e fé para transformar a realidade
POR HELENA OLIVEIRA

Na sessão inaugural do VIII Congresso Nacional da ACEGE, D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa, iniciou a sua intervenção com uma constatação simples, mas muito real: “o sentido da esperança tem surgido na História em contexto de adversidade”. Como afirmou, e frequentemente, é nas circunstâncias mais desafiadoras, quando as dificuldades parecem intransponíveis e as quedas inevitáveis, que ela se manifesta com maior intensidade. “Mais do que uma virtude dos humildes ou dos desfavorecidos, a esperança é a força dos construtores”, disse, “daqueles que, mesmo diante da incerteza, mantêm a fé, a resiliência e a determinação para seguir em frente”.

Citando o exemplo bíblico de Abraão o qual, de acordo com S. Paulo “esperou contra a esperança”, relembrou que este aguardava, com uma fé inabalável, a realização de uma tríplice promessa divina. No entanto, os anos passavam, e a promessa parecia cada vez mais distante. Seria pai de uma imensa multidão, mas nem sequer tinha um filho. Herdaria uma terra, mas, ironicamente, o primeiro pedaço de solo que adquiriu foi para sepultar a sua esposa, Sara. Seria fundador de uma pátria, mas, em vez disso, foi aquele que abandonou a sua terra e viveu como um estrangeiro, sem nunca ver plenamente cumprida a promessa que lhe fora feita.

No entanto, e tal como sublinhou o Patriarca de Lisboa, “embora não tenha visto a promessa cumprir-se em vida, Abraão nunca deixou de acreditar”.

“Depois, vem Jesus”, continuou. Também Ele falou incansavelmente sobre a esperança — “uma esperança realizada, enraizada na chegada do Reino de Deus, que se manifestava em justiça, paz e fraternidade”. Mas o contexto em que Jesus viveu e actuou era tudo menos favorável: “uma terra ocupada por uma superpotência, Roma, cujo domínio, perdoem a expressão forte, era brutal para com aqueles que lhe estavam subjugados”.

Era uma terra onde se falava de fraternidade, mas onde prevaleciam a traição e a desconfiança mútua. Judas foi apenas um exemplo dessa realidade. “E foi precisamente nesse cenário que Jesus fez sobressair a verdadeira esperança”, realçou.

Depois, surge São Paulo, conhecido como o grande poeta da esperança. Escreveu palavras extraordinárias sobre ela, entre as quais: “Se Deus está por nós, quem será contra nós?” E quando Paulo escreveu estas palavras, onde estava? Na prisão. “Ainda assim, tinha a certeza inabalável de que Deus está sempre connosco”.

“A esperança tem uma origem transcendente, que é de Deus”

D. Rui Valério citou igualmente o filósofo Immanuel Kant e a sua obra sobre a razão e a moralidade, na qual se confrontava com uma época em que a imanência da modernidade bloqueava o acesso à transcendência. Como contou à audiência, Kant viveu e trabalhou em Königsberg, onde ensinava e reflectia profundamente sobre a condição humana. No entanto, ele sentia-se, de certa forma, limitado, como se estivesse sufocado por uma realidade que não lhe bastava. Buscava algo além do imediato, um horizonte mais amplo. Ou seja, também Kant, “sentindo uma forte pressão intelectual e existencial”, reflectiu sobre a esperança como algo essencial para enfrentar as dificuldades da vida.

E é neste contexto que D. Rui Valério voltou a afirmar que a esperança é uma virtude dos construtores. “Essa atitude construtiva, essa luz que o ser humano carrega dentro de si, não pode depender apenas da realidade concreta, dos acontecimentos do mundo ou das circunstâncias terrenas. Ela precisa surgir de algo mais profundo, de uma convicção interior que transcende o presente e aponta para um futuro melhor. Ou seja, “tem uma origem transcendente, que é de Deus”.

“A Igreja reconhece que a esperança é um dom divino derramado nos nossos corações, permitindo-nos tornar construtores da História e de um futuro melhor. Com a esperança, encontramos forças para olhar para a História não apenas como uma narrativa com início e fim, mas como um caminho em constante construção, onde, mesmo diante de problemas aparentemente insolúveis, conseguimos encontrar novas possibilidades e soluções”, disse ainda.

A esperança é, assim, uma virtude escatológica, ligada à transcendência, ao céu. Ela não se limita a ser um simples optimismo ou uma expectativa do futuro, mas “é um movimento de fé e confiança em Deus, que nos orienta para a justiça, a paz e a fraternidade”.

Para o Patriarca de Lisboa, “a esperança chama-nos a ser construtores do céu aqui na Terra, criando condições de bem-estar e harmonia nas nossas relações quotidianas”, sendo que a justiça, a paz e a fraternidade são fundamentais nesse processo, pois representam valores do Reino de Deus que devem ser concretizados no presente.

D. Rui Valério destacou igualmente a importância da paz como uma das maiores bênçãos da vida, comparando-a ao céu, pois a paz é a condição para todas as outras bênçãos, como a vida, a família e a terra. “Jesus, ao falar do Reino dos Céus, não se referia apenas ao futuro, mas ao presente, ao que podemos construir agora, no nosso dia a dia, nas nossas atitudes e acções”, referiu.

“A outra faceta da esperança é o amor”

D. Rui Valério sublinhou também que a verdadeira esperança está intimamente ligada ao amor, pois é impossível ter esperança sem amor. “O amor dá sentido à esperança, tornando-a uma força transformadora e construtora de um mundo mais justo e harmonioso”, declarou.

“Qual será a coisa mais terrível que alguém pode ouvir? Qual é a palavra mais dura que se pode dizer a outra pessoa?”, questionou, respondendo: “Para mim, é esta: De ti, não espero mais nada.”

Como explicou, quando alguém ouve esta declaração, é como se estivesse a ser anulado, como se a sua existência perdesse significado. Não esperar nada de alguém é, de certa forma, equivalente a “matar” essa pessoa simbolicamente, negando-lhe qualquer possibilidade de redenção, de crescimento, de futuro.

Por isso, quando dizemos a alguém De ti, espero tanto!”, quando afirmamos que temos esperança nessa pessoa, “não estamos apenas a fazer um cálculo racional, uma análise objectiva. Essa esperança não nasce apenas da razão ou da evidência – nasce do amor”.

Sim, acentuou, “a esperança só é possível quando há amor. Sem amor, falta-nos aquilo que dá alma à própria esperança, aquilo que a sustenta e a mantém viva.

E é por isso que, a seu ver, a esperança se transforma num compromisso: “um compromisso com a justiça, com a paz, com a fraternidade, com a tolerância, com a defesa dos direitos humanos e da dignidade de cada pessoa”.

“Ser construtor de esperança significa exactamente isto”, garantiu.

“A esperança é uma virtude que nos conecta com Deus e com a transcendência”

D. Rui Valério falou igualmente sobre a experiência humana de lidar com fracassos e perdas, recordando uma história da sua aldeia, onde as pessoas reagiam de formas diferentes ao perder as suas colheitas. Enquanto algumas viam a adversidade com amargura, outras, apesar da perda, voltavam-se para Deus, buscando forças para seguir adiante. E é a isso que D. Rui Valério chama de “espiritualidade concreta”: “ver a acção de Deus mesmo nas dificuldades, transformando momentos de sofrimento em oportunidades de crescimento espiritual e de esperança renovada”.

O Patriarca de Lisboa finalizou a sua intervenção explicando o conceito de espiritualidade, baseado no ensinamento de um padre jesuíta, seu professor. “Espiritual é tudo aquilo que, através da força do espírito, nos aproxima de Deus, nos comunica Deus, nos coloca em diálogo com Deus e nos torna conforme Cristo.”

No concreto, explicitou, “a espiritualidade acontece quando nos sintonizamos verdadeiramente com Deus, não de forma abstracta, mas através daquilo que vivemos no dia-a-dia. Seja nas alegrias ou nas dificuldades, ela manifesta-se em cada experiência”.

Na verdade, acrescentou, até mesmo a maior adversidade ou o maior fracasso da vida podem tornar-se um momento de encontro espiritual. Isso porque a espiritualidade não é algo separado da realidade, mas sim a capacidade de tornar sagrado o que vivemos.

“Santificar a vida significa vivê-la a partir da nossa interioridade, permitindo que ela seja habitada por Cristo e por tudo aquilo que Ele nos oferece: o amor, a esperança e a fé”, disse. E quando isso acontece, “Deus não está apenas numa dimensão distante – Ele está presente em tudo o que nos rodeia, em tudo o que realizamos, em tudo o que vivemos”.

Voltando ao tema inicial e que deu o mote ao congresso, para o Patriarca de Lisboa, “a esperança é uma virtude que nos conecta com Deus e com a transcendência”, ajudando-nos a construir um futuro melhor e a sermos agentes de um mundo mais justo e pacífico. “Ela exige de nós amor, compromisso e espiritualidade, e é por meio dessa atitude construtiva que podemos transformar as adversidades em oportunidades de renovação pessoal e colectiva”, rematou.

NOTA: Para aceder à intervenção de D. Rui Valério na íntegra siga este link

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