No VIII Congresso Nacional da ACEGE, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, destacou a importância da esperança e da fé como fundamentos essenciais para a construção de um futuro mais humano e solidário. O seu discurso abordou o percurso histórico da ACEGE, os desafios do associativismo em Portugal e a necessidade de um compromisso renovado com valores cristãos e éticos na sociedade e no mundo empresarial
POR HELENA OLIVEIRA
Marcelo Rebelo de Sousa iniciou a sua intervenção recordando a trajectória da UCIDT (União Católica dos Industriais e Dirigentes de Trabalho), precursora da ACEGE, e enaltecendo a liderança de figuras determinantes na consolidação da associação, como José Carlos Mardel Correia, Pedro Teixeira Duarte, António Luís Sousa Largo, João Alberto Pinto Basto, António Pinto Leite e João Pedro Tavares. Salientou o contributo de inúmeros dirigentes que, ao longo dos anos, consolidaram a missão da ACEGE, reforçando a sua influência na promoção de uma gestão empresarial assente em princípios cristãos e recordou a atribuição da Ordem de Mérito à associação, em 2022.
Marcelo Rebelo de Sousa abordou os desafios históricos do associativismo em Portugal, muitas vezes enfraquecido por um longo período de paternalismo estatal e por uma cultura que, progressivamente, marginalizou a vivência religiosa no espaço público. Apontou que, apesar dessas adversidades, a ACEGE tem sido um bastião de esperança e renovação de valores, promovendo um modelo de liderança empresarial que equilibra a eficiência económica com a responsabilidade social e ética e com vista ao bem comum.
“Que o mandato da nova presidente [Patrícia Liz] e dos novos dirigentes seja sinal de futuro, é o voto de todos nós, num país em que larguíssimos séculos de paternalismo estadual afogaram o associativismo, criaram complexos culturais perante a empresa privada, e o secularismo e o laicismo da pós-modernidade têm dificuldade em aceitar a vivência religiosa fora do templo ou da sacristia”.
No contexto actual, caracterizado por crises de valores, fragmentação social e uma Europa que se distancia das suas raízes personalistas, o Presidente alertou para os riscos de um mundo onde a desumanização e o interesse imediato se sobrepõem aos princípios e compromissos éticos.
“(…) Onde ainda há pouco se acreditava que pessoas e os seus espaços de afirmação, autónoma, éticas e de vontade, e seus sentidos de serviço ao bem comum limitando excessos egocêntricos e fazendo respeitar princípios e regras de conduta e facilitando assim a congregação, a partilha e a humanidade, se descobre, num ápice, que onde se desejava o serviço, o respeito, o cumprimento da palavra dada, emerge a conveniência, o agnosticismo total de princípios e meios, cada vez mais feito de traição de palavras dadas, de instituições básicas, de testemunhos inspirados e inspiradores”.
O Presidente da República sublinhou assim a necessidade de reconstruir a esperança, alicerçando-a numa fé sólida – não necessariamente religiosa, mas ancorada em convicções profundas sobre a dignidade e os direitos humanos. Argumentou que sem fé não há verdadeira esperança e, sem esperança, a sociedade torna-se fragmentada, guiada por interesses egoístas e desprovida de um horizonte moral.
“Sem fé não pode existir esperança. O que se chama esperança não passa de um exercício formal, procedimental, casuístico, fragmentário daquilo que deve ser uno, a pessoa. Com fé, a ética e a moral, existe uma esperança na vida familiar, uma esperança na vida de proximidade, uma esperança nas comunidades de várias dimensões e matizes, uma esperança na escola, uma esperança na empresa, uma esperança cívico-política, local, regional, nacional, continental e universal. Da vida e da saúde, à morte, à formação, às condições sociais, à economia, à gestão dos recursos privados, sociais e públicos, à sua multiplicação e à sua distribuição”.
Para o Presidente, a fé cristã, central para muitos dos presentes, é um chamado à construção da eternidade já no presente. Defendeu que essa fé deve ser activa, traduzindo-se em acções concretas de transformação e não apenas em omissão. Referiu que, ao longo da história, Portugal passou por períodos de absolutismo e autoritarismo que enfraqueceram os corpos intermédios da sociedade, mas que, ainda assim, subsiste uma vocação natural para a solidariedade e para a construção de um bem comum sustentado em valores perenes.
“Esperança é querer outro mundo, menos egocêntrico e desumano. É manter irmandades ou redescobri-las onde os nossos irmãos de ontem nos confrontarem com partidas, abandonos ou distanciamentos. É introduzir a razão onde parece só valer a emoção. É reafirmar valores onde é fácil fazer de conta de que morreram ou estão suspensos sine-die”.
Marcelo Rebelo de Sousa destacou que a esperança verdadeira deve ser acompanhada pela caridade, pelo amor ao próximo e por uma compaixão que não se limita a boas intenções, mas que se traduz em compromisso e serviço aos mais necessitados. Defendeu que a esperança, quando desprovida de fé e compaixão, torna-se um mero exercício formal e vazio, sem capacidade de gerar verdadeira mudança.
“A esperança impõe um amor, o amor dos outros. Uma doação traduzida em compromissos de agir e de agir onde e como é mais premente e inadiável, se quiserem, uma compaixão. Esperança sem fé e esperança sem compaixão é roteiro de boas intenções, sem destinatários, sem toque de realidade encarnada e, por isso, sem capacidade de mobilização ou de credibilidade gregária”.
O Presidente abordou ainda os desafios contemporâneos, como a crise de valores na sociedade ocidental, o enfraquecimento das instituições e a necessidade de resgatar a ética na vida pública e empresarial. Enfatizou que Portugal, pela sua história e posição geopolítica, tem um papel fundamental como ponte entre culturas e civilizações, devendo reforçar essa vocação tanto a nível interno como externo.
“Nestes instantes que vivemos hoje, de aparente inevitabilidade de um novo ciclo universal, de substituição de uma muita enfraquecida ordem internacional, não por uma nova ordem, mas por uma desordem, ao sabor dos experimentalistas, dos experimentalismos, dos supostos quasi-deus, de crise de uma certa Europa, tão necessária, mas tão formal, tão tecnocrática, tão esquecida da substância das coisas. E uma pátria que tem de continuar a manter incólume a sua vocação de plataforma, entre culturas e civilizações, entre oceanos e continentes, com passado e futuro, só crescendo, de vez em quando, de ser tão plataforma cá dentro como é lá fora. Nestes instantes, tenhamos fé, que essa fé inspira a nossa esperança, que uma e outra mobilizem a nossa compaixão, o nosso serviço incansável (…).
No encerramento da sua intervenção, apelou para que os cristãos estejam na primeira linha do serviço e na última linha do privilégio. Encorajou os presentes a continuarem a missão da ACEGE com determinação, promovendo um modelo de liderança que coloque a pessoa no centro e que contribua para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Concluiu reiterando a necessidade de uma fé inspiradora, de uma esperança mobilizadora e de uma compaixão transformadora, elementos essenciais para a edificação de um futuro mais digno, humano e solidário.
NOTA: Para aceder à intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa na íntegra siga este link
Editora Executiva