Sabemos que o ativismo é uma forma de comunicação direta e deliberada que procura influenciar, de preferência positivamente, a opinião pública e, sobretudo, quem toma decisões. Se queremos ação, reação e mudança temos de fazer diferente. Convenhamos, atirar tinta ao próximo ministro do ambiente não é fazer diferente, não é original e já muito pouca gente tem paciência. Não me lembro de ter feito diferente ou mais rápido com alguém a gritar-me aos ouvidos
POR MARIA JOÃO RAMOS

Nos últimos meses, algumas pessoas e organizações têm utilizado o ativismo para mostrarem o seu descontentamento, angústia e, às vezes, desespero. Os métodos utilizados, na minha opinião, podem e devem ser questionados. E não é por terem ou não direito a este tipo de manifestações, e também não é pela oportunidade da mensagem, mas sim pela sua eficácia. Relativamente à oportunidade da mensagem todos estamos de acordo em relação à urgência. No que se refere à parte do direito deixo para quem sabe de direito. Já sobre a forma e o conteúdo, ou mais concretamente, a comunicação, tenho uma palavra a dizer e muitas questões.

Sei que é um assunto polémico e, por isso, começo por dizer que considero o ativismo (neste caso, climático) necessário e fundamental para ajudar a combater as alterações climáticas. Não tenho qualquer dúvida sobre isto. Mas… o que é que é aceitável? Existirá uma linha vermelha? E até onde é que podemos ir sem ultrapassar essa linha?

É óbvio que estas iniciativas atraem a atenção dos media. Mas será uma atração social, moral ou fatal? Será que conseguem apoiantes para a sua causa quando atiram com tinta a um ministro? Será que colocam o tema na agenda, com o foco certo na discussão das soluções tão necessárias, quando as montras e os portões de alguma entidade são partidos? Será que convencem alguém sobre o seu ponto de vista, ao cortarem o trânsito na 2ª circular, impedindo que as pessoas cheguem a horas ao emprego ou a alguma consulta urgente?

Por outro lado, onde é que está a criatividade, uma das principais componentes da eficácia, quando se atira sopa a uma obra de arte?

E pergunto também, quem são estas pessoas? Quem são estas pessoas que me querem fazer sentir mal por pegar no carro para ir trabalhar ou levar os filhos à escola? Querem causar-me um sentimento de vergonha desconfortável? Mas porquê? Procuram convencer quem e sobre quê? Qual é a mensagem que querem passar com estas atitudes?

Tenho para mim que o combate às alterações climáticas faz-se envolvendo as pessoas, sensibilizando para a mudança. Urgente, claro. Mas há muito tempo ouvi uma expressão que fez muito sentido: “A minha gaveta está cheia de assuntos urgentes e que se resolveram sem eu ter que fazer rigorosamente nada”.  Se não queremos que as pessoas enfiem este tema na gaveta, temos de ser muito mais eficazes do que temos sido até aqui.

Sabemos que a mudança, de uma forma geral, suscita sempre sentimentos: a incerteza do que está para vir gera quase sempre ansiedade, gera desconforto, às vezes tristeza ou frustração, mas também provoca entusiasmo, esperança, alegria. Cada um à sua maneira vai lidando com a mudança, com as suas mudanças, no seu tempo, ao seu ritmo.

Se queremos ação, reação e mudança temos de fazer diferente. Convenhamos, atirar tinta ao próximo ministro do ambiente não é fazer diferente, não é original e já muito pouca gente tem paciência. Não me lembro de ter feito diferente ou mais rápido com alguém a gritar-me aos ouvidos. Alguém que me diga se alguma vez lhe correu bem uma discussão sobre temas urgentes e emergentes em que os intervenientes estão com uma atitude hostil ou de fúria. Nem no futebol essas atitudes funcionam, e este não é, claramente, um tema urgente. Não me lembro de alguma vez ter convencido seja quem for do que quer que seja atirando com uma sopa à cara dessa pessoa.

Educar, consciencializar, mobilizar as pessoas através de campanhas informadas, protestos pacíficos, petições, parcerias, pressão política, pressão jurídica não serão métodos mais tradicionais, mas com maior eficácia a longo prazo? Até as crianças e os jovens já nos mostraram que sim quando acusaram a União Europeia de não fazerem o suficiente na luta contra as alterações climáticas.

Não será também mais eficaz chegar ao coração das pessoas ou ao que lhes toca diretamente? Não haverá um equilíbrio entre as fotografias de tragédias causadas por fenómenos extremos ou do urso polar a morrer à fome e as boas práticas e bons exemplos por este mundo fora? Com muita pena minha, nunca vi ao vivo um urso polar e não é nada simpático deitar a cabeça na almofada com a culpa de não poder salvar os ursos ou com um sentimento de vergonha quando chego de carro a algum lado e me perguntam: “mas não trabalhas em alterações climáticas??” Não será mais eficaz explicar às pessoas porque é que as alterações climáticas interferem com os preços dos produtos que compram no supermercado? As pessoas não compram ursos. E também não entendem porque é que atirar sopa ao quadro da Mona Lisa tem alguma ligação com o direito a uma alimentação saudável ou ao sistema agrícola.

Temos tantos e tão bons exemplos de ativismo nacional e internacional que contribuem para a mudança de forma positiva, que voltarei a este tema, num próximo artigo.

Para já, deixo uma sugestão: se quer ter a oportunidade de envolver, sensibilizar, agir pelo clima e, por certo, contribuir para a mudança e influenciar outros a fazerem mais e melhor, candidate-se à Viagem pelo Clima. Até 31 de março pode fazê-lo. Basta ter 18 anos ou mais (sem limite de idade). Esta é uma iniciativa que tem como mensagem chave a procura de soluções em que todos temos uma contribuição a dar, em que todos contam e fazem a diferença

As alterações climáticas não afetam todos da mesma forma, mas todos nós podemos assumir um compromisso com alguma mudança. E isso não significa que todos podemos ou queremos ter um carro elétrico, ou uma casa eficiente ou largar os transportes públicos. Também não significa que todos tenhamos de ser ativistas ou ambientalistas. Significa sim, que todos podemos fazer alguma mudança, sair da zona de conforto sem se tornar desconfortável e não cedendo à vergonha. E significa também evitar que a sociedade enfie o assunto na gaveta.

Consultora de Estratégia e Comunicação para o Desenvolvimento Sustentável

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