Frederico C. é um cinquentão com bom aspecto. Simpatiza-se francamente com ele. É culto, leitor e de vocabulário esmerado. Entrou na universidade em meados dos anos 80. Gostava das aulas, mas gostou mais das cartas no bar e das conversas com as colegas. E as cartas, para se jogar mais a sério, passaram a valer dinheiro. Instalou-se o vício e nasceu um buraco muito grande por baixo dos pés do nosso entrevistado
POR PEDRO COTRIM

As cartas na faculdade. Quem nunca?

Sim, as cartas na faculdade. Mas surge um problema: quem gosta mesmo de jogar, quer que os outros estejam concentrados. Não há nada mais irritante que jogar um King ou uma Sueca com parceiros que não ligam peva. Se se jogar a dinheiro, joga-se com muito mais atenção.

Será isso? Não será antes o apelo da aposta a dinheiro?

Sem dúvida, mas, no meu caso, acredito que começou mesmo assim. Irritava-me que alguns jogassem enquanto estavam na conversa ou que não se calassem. Porque é que a malta, quando joga à bola na escola, dá tudo o que tem, e num jogo que também é jogo está ali apenas de corpo presente? Para quem gosta de cartas, e há jogos fascinantes, é muito aborrecido. E repare que os jogos de cartas se mantiveram na sociedade da informação, porque pouco depois surgiram os solitaires e quejandos que ainda se jogam muito nos computadores e nos smartphones. Se não for para jogar concentrado, de que vale estar a jogar?

O dinheiro exige então mais atenção ao jogo. O que se passou com o Frederico?

Eu sempre gostei de cartas: Bridge, King e Baccarat eram jogados em minha casa aos serões. Na universidade, os meus colegas desconheciam alguns jogos, mas adoravam o King e a Sueca. E eu, que sendo bom aluno, ia pouco às aulas teóricas, passei a jogar todos os dias. Apareceu depois a Lerpa, para os que não entendiam o King e achavam que se fazia muita batota na Sueca. É muito fácil ganhar o vício do jogo a dinheiro, seja na Bisca ou no Poker.

O vício fica? Se gosta é de cartas, como passou para outros jogos?

O jogo de cartas, apesar de implicar muita atenção, é, em mais de 50%, um jogo de sorte e azar, pelo menos é assim que eu o entendo. Como gostei da adrenalina de jogar a dinheiro, pouco depois comecei a ir ao casino jogar Blackjack. E, no início, ganhei dinheiro, que, como sabemos, é o pior que pode acontecer.

Ganhar, perder, tornar a jogar para recuperar o que se perdeu e está instalado o círculo infernal. É isso?

É isso mesmo. O buraco começa a ficar cada vez maior, mas nós não o queremos ver. Fazemos vista grossa e achamos que vamos virar a sorte. Eu comecei a fazer apostas maiores e passei para a roleta.

Apostas maiores? De que valores falamos?

Isto sucedeu nos anos 80. Na faculdade, ao final do dia podíamos ganhar ou perder uns 4 ou cinco contos. No Blackjack do casino, os valores não eram muito diferentes. Numa mesa de roleta podiam estar cinquenta ou cem contos em fichas.

Eram valores altíssimos.

Sim, eram. Comparando empiricamente, diria que será o mesmo que agora ter numa mesa uns poucos milhares de euros. É o fundo, não se pode descer mais. Numa noite perdi 500 contos e jurei nunca mais jogar.

500 contos, nos anos 80, davam para comprar um carro.

Quase! Um Fiat Uno novo custava 800 contos. Um Renault 5 também. Perder 500 contos num estalar de dedos é um traumatismo. Acorda-se no dia seguinte sem se acreditar, a jurar que foi um pesadelo, mas não. Dói que se farta e parece que nos morreu alguém.

Como ultrapassou o trauma e como conseguiu que não lhe fizesse diferença nas contas do dia a dia?

Eu era estudante-trabalhador e não ganhava mal. Claro que fez muita diferença, mas serviu para a minha promessa de nunca mais jogar. E consegui ficar sem jogar durante dois anos e meio até uma bela tarde de sábado em que me senti entediado. Enfiei-me novamente no casino. Levei 50 contos e saí de lá com duzentos. Claro que foi novamente o princípio do fim. Regressei e saí com ganhos mais duas vezes, depois começaram as perdas e o desespero.

Mas a vozinha que nos diz para parar não serve de nada? O Frederico não tem outras compulsões, segundo me disse antes da nossa conversa.

Realmente, não tenho. Houve alturas em que ia jogar alcoolizado, mas era pela adrenalina e pelo gozo. Não tenho o vício do álcool, mas gosto de beber uns copos de vez em quando. E o casino, quando se está embriagado e inebriado, é uma experiência do caraças!

Como se pára então esta espiral? Tem de haver forma, senão é o colapso.

Infelizmente, é muito comum. Há mesmo muita gente viciada no jogo e o perigo de falência é mesmo real. Sucede muitas vezes e sei de outros casos trágicos. No meu caso, e como não havia ainda internet, pedi restrição de entrada nos casinos. Funcionou bastante bem. Também não havia raspadinhas e sobrava apenas o jogo clandestino ou as sociedades de totoloto que se faziam nos agentes. Por quinhentos escudos, entrávamos num grupo que podia ganhar uns cem mil contos. Foi o auge do totoloto, que também era usado para sorteios que davam menos dinheiro, mas com muito mais hipótese de sair. O jogo clandestino, antes do advento da internet, foi todo um mundo.

O Frederico meteu-se no jogo clandestino?

Não, eu gostava era do casino. Assim que passava a minha interdição, não renovava o pedido. Jogava novamente durante uns meses e depois pedia uma nova. Fi-lo durante muitos anos. Joguei poker, blackjack e roleta. Nas slot machines nunca me meti. Também nunca pedi dinheiro aos agiotas desta vida.

A figura do agiota. Existe mesmo e é comum? E quem é ele?

Felizmente, nunca lidei com nenhum. Sempre fiz o meu jogo muito a sós e conversava muito pouco com os outros jogadores. Achamos sempre que os outros são loucos por estarem ali a jogar, but the joke is on me. A vida dum jogador e o mundo que vê davam para um tratado filosófico.

O que é a vida no casino para um jogador? Não se sente vergonha por se estar ali?

Para um viciado, a vergonha é secundária. Claro que por vezes se pensa, mas o que conta mesmo é a aposta. Algumas pessoas que jogam nas máquinas têm a cara virada para baixo, ao contrário dos que se sentam às mesas das cartas ou das roletas, que ficam voltados uns para os outros. Não se vê vergonha, vê-se desespero absoluto e renúncia, renúncia do tipo zombie. Vêem-se pessoas francamente mal vestidas a apostar centenas de euros. Dá vontade de lhes dizer que vão comprar umas camisas e uns pares de calças, mas quem sou eu para dar conselhos?

Podem faltar coisas fundamentais, mas não falta o dinheiro para o jogo. É isso?

Tal e qual, e tal como sucede nas toxicodependências. O vício ganha sempre. Arde até se consumir. Temos de tratar do shot, senão ficamos doidos.

Mas o Frederico, segundo me disse, tem a vida mais ou menos equilibrada. Aguenta-se no trabalho e vai sustentando os filhos.

Sim. Tive a sorte de me licenciar numa área em que havia grande necessidade de trabalho e sempre ganhei bem. As mulheres com quem tive relações mais profundas não aguentaram o meu vício e puseram-se a andar, com tudo tratado nos tribunais. Tenho filhos de duas mulheres e está tudo bem estabelecido.

E como faz com os seus filhos? Sabem do vício?

Sabem. Sabem que sou frágil em relação ao jogo, mas também já são crescidos para não me julgarem. Pelo menos, o meu vício no jogo serviu para os afugentar das apostas. Nenhum dos três joga, a não ser de vez em quando no Euromilhões. Há por aí outro flagelo que é o das apostas desportivas. A geração dos mais novos joga a sério e mete muito dinheiro no futebol. O placard e outras plataformas levam muito dinheiro às pessoas. Acho surreal que o patrocinador da Primeira Liga seja uma casa de apostas. Na minha opinião, o jogo deveria ser muito mais regulamentado e com legislação muito mais rígida.

Realmente, é uma lição de vida, como tantas vezes sucede com as desgraças. E como joga o Frederico agora?

Agora jogo apenas nos jogos da Santa Casa. Não entro no casino há oito anos, não compro raspadinhas e não jogo online – aliás, creio que nunca joguei online. O meu calcanhar de Aquiles, neste momento, são as apostas grandes. Sou capaz de fazer uma aposta de duzentos ou trezentos euros no Euromilhões ou no Totoloto, mas tenho de esperar pelo resultado. É totalmente diferente do poker ou da roleta, em que se sabe rapidamente se se ganha ou perde.

Mesmo assim, é uma aposta substancial. Nunca lhe saiu nada?

Saíram-me uma vez quatro mil euros. De resto, alguns prémios de cento e picos e depois os corriqueiros, de vinte ou trinta euros.

O que faria se lhe saísse o jackpot? Continuava a jogar?

Nunca mais! Aí estaria em casa com ganhos e perdas. Contas por alto, terei perdido cerca de um milhão de euros na minha vida com o jogo. Se me saíssem alguns milhões, deixaria de trabalhar e viveria lindamente os anos que me restam, na companhia dos que me são queridos e sem nunca mais pensar no jogo.