É um dos termos mais falados na actualidade, mas nem sempre é fácil de o compreender na prática. Mas a verdade é que a IA generativa está, de forma célere e contínua, a invadir o ambiente laboral, provocando uma verdadeira disrupção na forma como se encara e se faz o trabalho. Saber “apresentá-la” aos empregados e implementá-la gradualmente na organização já não é uma opção radical, mas sim normal
POR HELENA OLIVEIRA

Em termos simples, a IA generativa funciona como um assistente criativo que utiliza algoritmos para gerar novos conteúdos, como texto, imagens ou música, com base em padrões que apre(e)nde a partir de dados existentes. É como ter um parceiro de brainstorming virtual que pode apresentar ideias, designs ou até mesmo obras de arte inteiras.

A IA generativa pode ser extremamente útil no ambiente laboral, na medida em que tem o potencial de agilizar fluxos de trabalho, aumentar a criatividade e melhorar a produtividade numa vasta gama de indústrias e profissões, tornando-se uma ferramenta valiosa cada vez mais utilizada no local de trabalho moderno.

A título de exemplo e numa pesquisa recente realizada pelo IBM Institute for Business Value (IBM IBV), 95% dos entrevistados afirmaram acreditar que a IA generativa irá mudar expressivamente os seus negócios. Três quartos dos CEO (75%) entrevistados esperam que a IA generativa se transforme numa significativa vantagem competitiva face aos concorrentes que não a usarem.

A IA generativa está já a causar um impacto sem precedentes no que respeita às funções dos RH, permitindo o processamento automatizado de dados, libertando os funcionários para empreendimentos de maior valor, entre variadíssimos outros benefícios, e provocando em simultâneo uma profunda disrupção em toda a organização. No geral, a implementação da IA generativa poderá remodelar a cultura de desempenho da organização, incentivando a força de trabalho de hoje a adoptar as competências do amanhã. Os RH devem desempenhar o seu papel na criação de uma cultura inovadora, assente na curiosidade e na experimentação rápida na qual a IA generativa possa prosperar – bem como os funcionários que a adoptam.

A mudança alimentada pela IA está a ocorrer a uma taxa exponencial. O ChatGPT da OpenAI tem sido a aplicação de consumo com um crescimento mais elevado na história, com cerca de 100 milhões de utilizadores activos mensais apenas dois meses após seu lançamento. (O Instagram levou dois anos e meio para atingir esse marco.) E, por outro lado, a obsessão empresarial pela IA generativa tem sido igualmente intensa, com a forma como as pessoas trabalham a sofrer transformações radicais. Uma outra pesquisa conduzida pelo IBM Institute for Business Value (IBM IBV) indica que 40% da força de trabalho global precisará de requalificação devido à implementação da IA e da automação nos próximos três anos.

Esta estimativa traduz-se em 1,4 mil milhões dos 3,4 mil milhões de população activa do planeta, de acordo com estatísticas do Banco Mundial. A onda de requalificação, embora desafiadora, pode desencadear enormes mudanças na forma como o trabalho é realizado: 87% dos executivos globais entrevistados pelo IBM IBV esperam que as funções profissionais sejam “aumentadas” pela IA generativa, com a personalização no centro da sua utilização.

Desta forma, o IBM Institute for Business Value divulgou o relatório intititulado HR champions generative AI com 10 “apelos à acção” que permitem ajudar as organizações a reinventar a experiência dos seus funcionários para acompanharem adequadamente este ambiente em profunda mudança.

Definir o “tom” organizacional para a IA

São já muitos os funcionários que se interessam pelo bom e pelo mau constante na IA generativa, experimentando a tecnologia no seu tempo livro e tentando igualmente utilizá-la em contexto de trabalho. E no que respeita em particular aos RH, é preciso não esquecer que o primeiro passo é saber comunicar abertamente as promessas da IA ​​generativa em toda a empresa. Se apreensão e entusiasmo são muitas vezes as duas faces da mesma moeda, partilhar as estratégias de IA da empresa, incluindo as protecções e segurança necessárias, e envolver os funcionários apostando na transparência são dois comportamentos essenciais.

Existem igualmente questões que afectam os trabalhadores e que devem ser adequadamente respondidas. De que forma é que afectará meu trabalho? Ainda terei um emprego? Como alerta o IBM IBV, este tipo de stress não pode ser subestimado. Na verdade, a pesquisa do IBM IBV mostra que mais de metade (54%) dos funcionários estão preocupados com a possibilidade de as novas tecnologias tornarem os seus empregos obsoletos. Os RH podem facilitar programas que investiguem mais profundamente os detalhes desta inquietação e apoiem a reformulação do trabalho e das funções profissionais, na medida em que este tipo de tecnologia não procura substituir os empregados, mas sim a funcionar como uma espécie de assistentes inteligentes. Assim, saber responder a  quais são as preocupações específicas dos funcionários sobre a IA generativa e ao que está a alimentar o cepticismo face à sua adopção é imperativo.

Ou seja, o diálogo inclusivo é fundamental – por meio de chats online, focus groups, reuniões presenciais, pesquisas e muito mais – para que a empresa entenda as preocupações dos funcionários e possa abordá-las.

Colaborar em estratégias de IA e promover uma cultura de IA responsável

A confiança é fundamental, bem como promover um alinhamento com os funcionários da linha de frente para explorar e co-criar princípios orientadores em torno da ética, da confiança e da transparência. É possível modelar o uso de IA generativa, mantendo sempre os empregados bem informados e aproveitá-la para obter insights e recomendações, com a tomada de decisão final sempre nas mãos das pessoas. Certifique-se de que os grandes modelos de linguagem (LLM, na sigla em inglês) sejam continuamente testados e reavaliados. Comunique directrizes, com proteções integradas, para orientar os funcionários na direcção certa. Fundamentalmente, tal inclui parcerias com departamentos de toda a organização para aumentar a sensibilização para as medidas de segurança cibernética.

Dar as boas-vindas à Força de Trabalho Aumentada*, onde os trabalhadores humanos são apoiados por assistentes digitais – cada vez mais alimentados por IA generativa

À medida que os funcionários ficam mais confortáveis ​​com a IA generativa, torna-se mais fácil evoluir no sentido de aceitar assistentes digitais alimentados por IA. Ao mesmo tempo, é fundamental que os trabalhadores tenham um sentimento de propósito relativamente à forma como o seu trabalho se alinha directamente com a visão organizacional. Numa outra pesquisa recente do IBM IBV, quase metade (45%) dos funcionários afirmou que o impacto do seu trabalho consistia no atributo com maior importância para si mesmos.

Assim, e com uma visão mais clara do potencial da IA ​​generativa, os funcionários poderão adoptá-la como uma via para trabalhos de maior valor e carreiras mais significativas. Para esse fim, os RH devem promover casos de utilização em que a adopção generativa da IA ​​conduza a resultados mais satisfatórios e eficazes para os colaboradores. À medida que os RH redesenham o trabalho humano com a ajuda da inteligência artificial “aumentada” em mente, é necessário criar experiências de vida profissional centradas no ser humano, com interacções que sejam naturais e intuitivas para o estilo e os processos de trabalho organizacionais.

*A inteligência aumentada é um subconjunto da inteligência artificial em que as tecnologias de IA auxiliam os humanos em vez de substituí-los. Normalmente, tal é feito utilizando o “machine learning” para analisar dados e ajudar os humanos a tomar decisões mais inteligentes. Os humanos podem usar a inteligência aumentada para aprimorar as suas capacidades e ferramentas.

Facilitar a co-criação de novos empregos e novas formas de trabalhar

Os RH precisam de assumir o papel de liderança na reformulação do futuro dos empregos, antecipando como será esse futuro e quais as alavancas que tornarão esses novos movimentos uma realidade. Tal começa com uma revisão das estruturas analíticas do trabalho, tanto agora como no futuro do “trabalhador-aumentado”. Listas de processos e tarefas, mapeamento do fluxo de valor e arquiteturas de cargos e taxonomias de competências são métodos e ferramentas que os RH podem usar para apoiar a gestão nesta jornada de design organizacional.

Os funcionários precisam de visualizar de que formas os seus planos de carreira podem evoluir nesta nova realidade, com este exercício a poder capacitá-los nas suas escolhas profissionais. E, igualmente, a organização poderá ajudá-los a percorrer essas jornadas de maneira contínua.

Os gestores são os agentes de mudança decisivos para aumentar o envolvimento e a produtividade quando se trata de redesenho de cargos. Os gestores precisam criar um espaço seguro para os funcionários, permitindo a liberdade de experimentar e co-criar planos de carreira gratificantes personalizados através da IA generativa. E precisam igualmente de trabalhar com os funcionários para determinar em que casos a IA generativa pode ajudar, atrapalhar ou não fazer diferença alguma.

A gestão pode envolver-se num diálogo criativo em torno do potencial de tarefas “aumentadas”, incluindo questões como: “Que parte do seu trabalho não o inspira?” e “O que você faria com cinco horas extras por semana?” Ou e em suma, é assim que IA generativa e os assistentes digitais podem ajudar nos empregos, e não substituí-los.

Aperfeiçoar (upskill) e requalificar (reskill)* em todo o espectro de competências, não apenas no domínio da tecnologia

Incentive todos os funcionários a actualizar regularmente as suas competências e conhecimentos digitais para permanecerem relevantes no ambiente laboral actual e futuro. Ao mesmo tempo, é essencial proporcionar formação contínua em capacidades não-STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, na sigla em inglês). Na parceria humano-tecnologia em evolução, qualidades como competências pessoais, adaptabilidade e colaboração tornam-se cada vez mais importantes. Quando se trata de investimentos em melhoria de competências e requalificação, as organizações devem recompensar os funcionários que estão totalmente preparados para actualizar as suas competências e adoptar novas formas de trabalhar. A requalificação deve ser posicionada como uma oportunidade de crescimento personalizada para indivíduos com capacidade e interesse para enfrentar tarefas emergentes em território desconhecido.

*Enquanto o upskilling – requalificação – visa ensinar a um trabalhador novas competências para optimizar seu desempenho, o reskilling (também conhecido como reciclagem profissional) procura dar formação a um funcionário para realojá-lo num novo posto na empresa. Em linhas gerais, diz-se que o primeiro cria trabalhadores mais especializados e o segundo trabalhadores mais versáteis.

Recompense a experimentação e a inovação

A implementação da tecnologia de IA generativa é sempre um desafio. Com as protecções corretas implementadas, os RH podem incentivar a experimentação desta tecnologia por meio de “competições” motivacionais, concursos, programas de certificação e outros reconhecimentos. É importante sublinhar o reforço da segurança psicológica, deixando claro que não há penalizações para experiências fracassadas. A pesquisa do IBM IBV mostra que as organizações que não penalizam o fracasso da IA ​​alcançam uma taxa de crescimento de receitas 22% maior em comparação com os seus pares, e que as empresas com um ambiente de inovação aberta e destemida apresentam um crescimento de receita 10% mais elevado. Faça da experimentação rápida e da descoberta ágil a forma padrão de trabalhar.

Recrute talentos com mentalidade digital – alguns com experiências não tradicionais

Os RH devem fazer mais do que identificar génios da IA ​​generativa. Ao concentrar-se nas competências versus diplomas para candidatos internos e externos, os RH podem recrutar funcionários criativos, curiosos e com vontade de aprender, e de backgrounds diversificados.

Exercer uma abordagem holística de gestão de talentos para a contratação e mobilidade dos funcionários nem sempre é simples. Com as competências exigidas a superar o mercado, as organizações precisam de ser criativas na definição dos requisitos de competências e das funções profissionais, promovendo uma forma dinâmica de trabalhar e promovendo novas oportunidades de crescimento.

Torne-se um unificador em todos os ecossistemas da força de trabalho

Faça dos RH o principal “curador” de competências para ajudar os líderes empresariais a aceder rapidamente às capacidades exigidas conforme as necessidades evoluem. A influência dos RH pode estender-se a toda a organização, o que naturalmente os posiciona como um canal para uma utilização confiável, segura e eficaz da IA ​​generativa.

Treinar a gestão sobre como conduzir uma nova avaliação de desempenho

À medida que a jornada da IA ​​generativa avança, os RH devem treinar os gestores sobre como avaliar as capacidades da IA generativa nos seus funcionários. Todavia, não estamos perante uma simples caixa de seleção de “sim ou não”. Deve-se, pelo contrário, optar pelas seguintes questões: Os funcionários estão a usar a IA de forma responsável e criativa? Quais são os exemplos de experimentação de novas aplicações? Como está a ser feita a “evangelização” e o apoio dado aos colegas menos avançados na escala de adopção? É possível fornecer exemplos de cenários colaborativos, mesmo que estes possam falhar na prática? Outro desafio: como avaliar o desempenho em empregos que estão em constante mudança devido à IA generativa? Os RH podem trabalhar com os gestores para serem mais flexíveis, receptivos e sensíveis às curvas de aprendizagem à medida que avaliam o desempenho.

Incentive os gestores a servirem como embaixadores da mudança

Os gestores têm uma influência especial na formação de uma empresa em evolução. Mas para serem agentes de mudança eficazes, a liderança deve navegar e superar desafios e sair voluntariamente das zonas de conforto, ao mesmo tempo que incentiva as suas equipas a fazerem o mesmo. Os RH podem recompensar e incentivar os gestores a partilharem as suas histórias pessoais e a serem transparentes sobre a sua própria visão em relação à IA. Quando a administração partilha fracassos e sucessos com as suas equipas, os funcionários entendem que é legítimo cometerem erros. Funcionários de todos os níveis podem aprender mutuamente e contribuir para promover uma cultura de curiosidade e aventura.

Imagem: © Steve Johnson/Unsplash.com

FONTE: HR champions generative AI

Editora Executiva

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