No dia 30 de Março de 1985 assinalou-se uma grande mudança no mundo das apostas em Portugal: efectuou-se o primeiro sorteio do totoloto, uma forma inédita de lotaria no nosso país. Até à data, e com gestão da SCML, havia apenas a lotaria nacional e o totobola. O novo jogo foi um fenómeno logo desde o início. Os primeiros vencedores acertaram na chave vencedora com a proverbial aposta mínima, uma espécie de tradição oral que se mantém viva. De resto, há estatísticas para tudo e mais alguma coisa: números que saem mais vezes, números que estão há mais tempo sem sair, números que saem em sorteios consecutivos, um vale tudo de nada. Mas, no fim de contas, a realidade é esta: só sai a quem aposta
POR PEDRO COTRIM

Dos dados e cartas primitivos, o jogo transformou-se numa tremenda indústria global, englobando não só os tradicionais jogos de casino, mas também as apostas desportivas, o jogo online e as lotarias. Os governos regulam e tributam este grande bolo, utilizando-o como fonte de receitas para os serviços públicos.

A percepção social sobre o jogo evoluiu, aceitando-se genericamente que é uma forma de entretenimento. A história do jogo reflecte a evolução da humanidade e a sua relação com o acaso e o risco – houve sempre muitas histórias de famílias dilaceradas pelo jogo. Devido às suas origens populares nas civilizações antigas, na realidade o jogo tem desempenhado um papel significativo na formação das culturas e das economias. Apesar de quem joga ter quase sempre enfrentado os preceitos morais, o jogo permanece como um passatempo um pouco por todo o mundo. Evoluiu dos simples jogos de azar para a multitude que conhecemos hoje em dia.

As raízes do jogo podem ser encontradas em civilizações antigas. Na Mesopotâmia, os primeiros dados cúbicos datam de 3000 a.C., indicando um fascínio precoce pelos jogos de azar. Os chineses também foram pioneiros, desenvolvendo jogos muito parecidos com os modernos jogos de lotaria. Durante a Idade Média, o jogo tornou-se cada vez mais popular na Europa. Jogava-se aos dados e às cartas, muitas vezes em tabernas e reuniões sociais. A altura também foi marcada por preocupações morais e religiosas em torno do jogo.

Em Portugal, a Lotaria Nacional nasceu em 1783, quando D. Maria I autorizou a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a explorar uma Lotaria anual sob a tutela e a fiscalização da Fazenda Real. No dia 1 de Setembro do ano seguinte, acontecia a primeira extração da Lotaria. Os lucros da lotaria seriam repartidos pelo Hospital Real, pela Casa dos Expostos e pela Academia Real das Ciências. A actual Sala de Extracções foi inaugurada em 1901. Durante grande parte do século XX, vimos cauteleiros nas ruas e as extracções semanais eram grandes atracções. A Lotaria do Natal era um evento aguardado e celebrado. Muitas pessoas reservavam o mesmo número para todos os sorteios e muitos apostadores compravam um bilhete inteiro, composto por vinte vigésimos.

Em 1961 surge o totobola, o célebre 1X2. Gera-se um culto do jogo associado ao futebol. As equipas passam ao imaginário de cada apostador e ao domingo, dia em que se disputava a totalidade das partidas, ganhavam-se os jogos e ganhava-se ao jogo. Como, para lá do totobola, havia apenas a lotaria nacional, as apostas eram grandes. Alguns apostadores ganharam realmente muito dinheiro com o totobola.

E em 1985, o totoloto. Não bastava acertar num número, era necessário acertar numa combinação. Em termos probabilísticos, era 500 vezes mais difícil acertar no totoloto que na lotaria nacional. As apostas eram muito mais baratas e os prémios muito maiores, o que tornava o sorteio de domingo num momento em que o país parava antes das notícias. Muitos milionários nasceram naqueles minutos dos anos 80 e 90 e muita gente jogava.

A estratégia da SCML passou por diminuir as probabilidades e aumentar os prémios. De muitíssimo reduzidas passaram a ser mesmo improváveis: apenas há quem acerte porque há milhões de apostas registadas. Genericamente, foram-se adicionando números para dificultar ainda mais a tarefa de encontrar a agulha no palheiro. O curioso, e que se mantém até agora, é que quanto maior for o prémio, maiores as apostas. Muito maiores, mesmo que para um não milionário, na prática, seja igual ganhar 5 milhões de euros ou 50.

O totoloto entrou no imaginário popular, e mesmo o actual presidente da república teve um papel numa brincadeira de primeiro de Abril: fez-se saber que havia saído uma quantia avultada ao então jovem professor de Direito. Marcelo Rebelo de Sousa, com o seu habitual bom humor, alinhou. Outras histórias notáveis foram a «adivinha» por Luís de Matos num cofre fechado e o concurso em que saiu uma bolinha com o zero, para perplexidade nacional e indignação de quem tinha acertado nos restantes números. Há também histórias de tragédia de quem acertou, fosse por perder a cabeça ou por confiar demasiado nos outros.

Em 2004 surgiu o Euromilhões. Prémios ainda maiores e hipóteses de acerto ainda mais reduzidas. Uma vez mais, a profusão de apostas implica que de vez em quando haja acertos, mas, mesmo assim, pode haver vários sorteios consecutivos sem totalistas. Em termos reais, as hipóteses de acerto de uma aposta são de um para 140 milhões. É que nem vale a pena fazer contas. Ou uma, apenas: é 2000 vezes mais difícil acertar nos números do Euromilhões que na Lotaria Nacional.

Com o EuroDreams, surgiu esta semana uma nova febre para segundas e quintas, dias ainda não preenchidos pelos outros grandes sorteios. Curiosamente, são os dias de extracção das duas lotarias exploradas pela SCML, a Nacional e a Popular. Novamente, os prémios de uns e de outros nada têm em comum. No primeiro sorteio do EuroDreams, alinharam na novidade 700 mil portugueses. Saíram dois primeiros prémios, os já célebres 20 mil euros por mês, mas fora do país. Contudo, os prémios em Portugal não tardarão. Mais um caso de sucesso para continuar, sem dúvida.

O totobola também permanece, mas quase esquecido e com poucos apostadores. O prémio típico, de ‘apenas’ 20 000 euros, empalidece ao pé destas arcas do tesouro que se destapam diariamente a partir de agora. A febre da bola passou para o placard, jogo muito comum entre os mais novos. A não ser quando há jackpots, que surgem habitualmente quando um dos «três grandes» escorrega. Avoluma-se o bolo e congregam-se olhares.

Esta semana houve sorteio do EuroDreams na segunda e do Euromilhões na Terça. O total de apostas em Portugal nos dois jogos foi de quase 55 milhões de euros, o que dá uma média de 5 euros por pessoa. E a sua aposta, de quanto foi?

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