Não, não será a minha agenda como anunciavam as TVs nos anos 90, mas sim uma agenda com oito temas de interesse capital para a Gestão de Recursos Humanos e para a vida das empresas em 2022
POR EDGAR SABINO

Começo por onde se deve começar, pela liderança. Que deve ser exemplar e modeladora de muitos comportamentos que queremos ver replicados nas nossas organizações. Que seja um ano de viragem, em que muitos líderes se coloquem ao serviço dos outros, usando as suas forças e vulnerabilidades e que numa postura coach digam: “Estou aqui, o que posso fazer para o ajudar?”. Precisamos de líderes com maior capacidade estratégica, é certo, para fugir ao eterno complexo de inferioridade no que toca à liderança em Portugal mas, acima de tudo necessitamos de líderes humanos, justos, éticos e empáticos. “Saber da poda” também é fundamental, mas saber colocar-se nos sapatos do outro quando se está no topo não é assim tão fácil. Um desejo para os líderes de RH, uma vez que somos os guardiões das pessoas e cultura nas organizações. Temos mesmo de ser os role models, fazer o walk the talk. Uma pista: a certificação efr pode ajudar neste processo.

Peço para o Natal e para 2022 empresas com um maior foco em comunicação, maior proximidade com os colaboradores. Ouvi-los, questioná-los e atempadamente fornecer feedback. Mostrar que a sua voz conta e que as iniciativas decorrentes desse feedback dependeram e foram influenciadas pelas suas opiniões.

Já ouviu falar na Great resignation? Será que é só nos EUA? Em 2022 veremos mais entrevistas de retenção, com o objetivo de se perceber e antecipar problemas e prevenir saídas de colaboradores. Mas, se quiser ir mais a fundo, a tendência parece estar nos questionários de ciclo de vida do colaborador, ou seja, em várias conversas nos múltiplos touchpoints da experiência do colaborador na organização. Afinal, conhecimento é poder.

O bem-estar tem de fazer parte da minha lista de desejos. Podermos trabalhar de uma forma equilibrada, com flexibilidade para gerir a nossa vida profissional, pessoal e familiar, e sentirmo-nos respeitados na nossa individualidade no seio das nossas empresas é fundamental para nos sentirmos bem. Para além disso, em 2022, gostaria de encontrar mais empresas onde a saúde mental fosse um tema amplamente discutido. A pandemia trouxe à tona esta realidade escondida há muito, mas sempre ouvimos falar de esgotamentos e agora de burnouts. Queremos empresas mais atentas, que organizem melhor as suas prioridades e recursos, que se discuta este tema como um risco psicossocial, que se implementem medidas de mitigação de stress, para que não se chegue a situações limite com impactos para tudo e todos.

A minha agenda tem também um separador para Formação e Desenvolvimento. Upskilling, reskilling para os trabalhos do futuro. Tudo certo, mas e para já, no imediato? O mundo mudou e temas como colaboração, comunicação, conciliação, espírito coach têm de ser abordados e trabalhados. Observamos hoje muitos colaboradores em casa, em regimes híbridos de múltiplas formas e feitios, pelo que a formação digital deve tomar ainda maior preponderância nos planos de formação das empresas no futuro próximo. Estes dias trouxerem muita mudança e complexidade, pelo que estamos em terreno fértil para envolver colaboradores em novas experiências e projetos, alguns fora da sua área de conforto e expertise onde já sabemos que é aí que “a magia acontece”.

A Diversidade e Inclusão (D&I) é um desejo para 2022 e para os anos seguintes. Já ouvimos dizer que empresas com maior índice de diversidade atingem melhores resultados financeiros, à boleia de melhores níveis de engagement e confiança dos colaboradores, melhor tomada de decisão e refrescadas perspetivas e índices de inovação. Importa que todas as franjas das nossas organizações, as nossas pessoas, entendam este conceito, a justiça social e o caráter inclusivo subjacente das práticas que forem implementadas nesta matéria. Aqui, como em muitos outros temas, liderar pelo exemplo é fundamental e as equipas de gestão podem dar o exemplo (ex: diversidade de género nos Boards, backgrounds, etc.).

Claro que não podia deixar de incluir na minha agenda um desejo sobre tecnologia. O famoso People Analytics que veio para tirar os RH da era da intuição, da experiência adquirida, do gut feeeling. Não deixam de ter o seu devido lugar e valor, mas para o futuro as decisões querem-se mais baseadas em dados, informação, factos, oriundas da supracitada comunicação bidirecional. A auscultação de colaboradores vai ser cada vez mais frequente e a análise de padrões e tendências vai ajudar os RH a tomar decisões mais acertadas, com mais valor para os colaboradores e com maior impacto para as organizações.

Um desejo antigo, mas que se repete, é uma legislação laboral mais amiga, onde não seja precisa uma pedra de Roseta para decifrar cada nova alteração às leis, em especial o novo regime de teletrabalho.

Sustentabilidade. Já o Elvis Presley cantava “A little less conversation, a little more action, please”. E é de ação que precisamos. Ações concertadas, alinhadas entre governos, associações setoriais, empresas, etc. Precisamos também de ações individuais desafiadoras, que nos obriguem a questionar os hábitos que adquirimos há anos e anos. Há sempre outra forma de fazer as coisas e as nossas decisões do dia-a-dia contam. As nossas decisões podem e devem mudar em prol das pessoas e do planeta.

A minha agenda para 2022 é exigente, eu sei, mas podemos contentarmo-nos com menos?

Senior HR & Communications Manager na Bel Portugal