De acordo com o IBM Institute for Business Value (IBV) que, ao longo do ano passado, entrevistou dezenas de milhares de executivos, trabalhadores e consumidores em todo o mundo, estas serão as prioridades no panorama empresarial para 2022, as quais e no geral, estão em linha com as demais tendências de gestão que, no início de cada ano, são publicadas por inúmeras entidades. Mas e também como acontece todos os anos – e ainda bem – quando enumerados os desafios mais prementes para os 12 meses que se seguem, estes constituem sempre uma porta de entrada para novas oportunidades que as empresas mais “atentas” ou mais “ousadas” – comummente conhecidas como organizações de elevado desempenho – podem e devem agarrar
POR HELENA OLIVEIRA

Como escreve o IBV no seu relatório 5 trends for 2022 and beyond, o caminho para a recuperação pós-COVID será longo e particularmente árduo para muitas empresas. Todavia e se ao invés se optar por uma visão optimista, este mesmo caminho poderá trazer grandes benefícios às organizações que se consigam focar no que é definido como essencial e apostar fortemente em planos de acção estratégica para enfrentar e ultrapassar os obstáculos num ambiente que, no geral, não será o ideal para o crescimento. Identificar as falhas dos velhos modelos empresariais e perceber melhor os novos modelos que estão a dar cartas, a par da análise de quais as abordagens mais bem-sucedidas ao longo destes já dois anos sob a sombra da pandemia, constituíram igualmente tema de análise para o relatório do IBV, há poucos dias publicado, e que elege cinco grandes tendências para 2022 e mais além.

O IBV sublinha igualmente que, de acordo com os inquéritos e entrevistas feitos aos executivos ou líderes de topo, estes estão obrigatoriamente a repensar a forma como operam ao longo de toda a cadeia de valor, a encontrar formas de aumentar a flexibilidade, a reforçar a cibersegurança e a reduzir o impacto ambiental das suas operações. Por outro lado, estão também a redefinir a forma como os seres humanos e a tecnologia trabalham em conjunto – e, muito importante, a criar culturas organizacionais que colocam as pessoas em primeiro lugar. Paralelamente e à medida que a inovação “aberta”, as parcerias entre ecossistemas e as experiências integradas dos clientes se tornam cada vez mais essenciais e valorizadas, as empresas precisam de se mover estrategicamente para se manterem relevantes. É que as escolhas – e os investimentos – que fazem hoje, irão definir, em parte, que portas lhes serão abertas amanhã.

Vejamos o essencial das cinco tendências que emergiram deste estudo e que, segundo os responsáveis do IBV, decorrem do que aprenderam com as exigências manifestadas pelos consumidores, trabalhadores e investidores, as quais estão em profunda mudança – para além de mostrarem igualmente o que as organizações de elevado desempenho estão a fazer e em que áreas os executivos estão a fazer as suas maiores apostas.

Sem transformação digital, não haverá empresa que subsista

Todos sabemos que a denominada transformação digital já estava em curso, mas que foi indubitavelmente “apressada” pelas novas necessidades decorrentes do ambiente pandémico em que vivemos há já dois anos.

Assim, e de acordo com o estudo em causa, 60% das organizações aceleraram os seus investimentos em tecnologias digitais devido à COVID-19 e mais de metade (55%) alterou permanentemente as suas estratégias organizacionais, na medida em que muitos executivos perceberam também que esta “metamorfose” veio para ficar. Assim, são muitas as organizações que estão mais concentradas em reagir do que encontrar o “plano perfeito”, visto que a mudança e a turbulência continuarão a imperar nos próximos anos.

Quando questionados sobre as suas prioridades para os próximos dois ou três anos, uma parte significativa de CEOs declarou precisar aguerridamente de mais agilidade e flexibilidade operacional (56%) face a qualquer outra acção. Estes mesmos CEOs já interiorizaram que a tecnologia irá desempenhar um papel fundamental na construção da resiliência e adaptabilidade cruciais para o crescimento dos seus negócios, motivo pelo qual a classificam como a principal força externa que terá impacto, a curto prazo, nas suas empresas, e com uma preponderância superior às preocupações regulamentares e aos factores de mercado.

A Internet das Coisas (IoT – 79%), a computação em nuvem (74%), e Inteligência Artificial (52%) são as tecnologias eleitas pelos inquiridos para a produção de bons resultados empresariais, tendo em conta que, e em particular a computação em nuvem, permitirá igualmente uma colaboração mais rápida e eficaz, assumindo-se como a força motriz para o crescimento no novo ano.

Um outro dado surpreendente reside no facto de os executivos afirmarem que estão a planear participar em ecossistemas empresariais, um crescimento de 332% em 2022 comparativamente a 2018. No entanto, para capitalizar as parcerias entre estes ecossistemas, as empresas precisarão de um forte núcleo tecnológico, bem como de reavaliar a forma como gerem os seus activos, infra-estruturas e talentos. Além disso, deverão abordar medidas críticas face ao que foi perdido, negligenciado ou ignorado ao longo do período de frenesim que se instalou com a chegada do surto pandémico e ao qual foram obrigadas a adaptarem-se.

Défice de talentos obriga empresas a dar prioridade ao bem-estar dos seus trabalhadores

A “Grande Demissão”[The Great Resignation], e em particular nos Estados Unidos, está em ritmo acelerado. Um recorde de 4,4 milhões de americanos despediu-se em Setembro de 2021, ultrapassando o registo máximo anterior de 4,3 milhões em Agosto. E, apesar de este défice de talento ter começado nos EUA, está agora a fazer-se sentir também a nível global. De acordo com a empresa de consultoria de gestão Korn Ferry, mais de 85 milhões de empregos poderão ficar por preencher a nível mundial até 2030 devido à falta de talentos qualificados, resultando em cerca de 8,5 triliões de dólares em receitas não realizadas. Só no sector tecnológico dos EUA, a falta de talentos poderá levar a uma perda de receitas de 162 mil milhões de dólares por ano.

Em última análise, a gestão de talentos é um jogo de soma zero. Isto significa que as empresas terão de olhar para o seu interior e fazer mudanças que atraiam potenciais empregados, algo que começa por mostrar às pessoas que as suas contribuições são valorizadas e que é dada prioridade ao seu bem-estar. As empresas que não satisfazem as necessidades dos empregados podem, assim, ver-se a braços com um enorme défice de talentos. De acordo com o estudo do IBV, quase 1 em cada 3 (30%) trabalhadores já mudou de empregador em 2021 ou planeava fazê-lo antes do final do ano, a par de mais 15% que o pretendem fazer em 2022.

Mais de metade (56%) dos que mudaram voluntariamente de empresa em 2021 citaram a necessidade de maior flexibilidade como a razão chave para darem este salto e quase um terço declarou tê-lo feito porque desejavam trabalhar para uma empresa que melhor se adequasse aos seus valores.

Adicionalmente, os que não planeiam mudar de empresa não estão necessariamente satisfeitos. Cerca de 1 em cada 4 trabalhadores afirma não acreditar que o seu empregador está verdadeiramente preocupado com seu bem-estar mental e físico e quase 1 em cada 3 diz o mesmo relativamente ao seu bem-estar financeiro. Como também já sabemos, a COVID-19 obrigou as pessoas a pensarem no que era verdadeiramente importante para elas e, depois de sobreviverem à perturbação causada pela pandemia, querem agora trabalhar de acordo com os seus próprios termos, trazer todo o seu “ser” para o trabalho e sentirem-se bem com o que produzem. Assim, e num mercado limitado, os melhores talentos recompensarão as organizações que provarem que colocam os seus empregados em primeiro lugar.

Sustentabilidade e transparência são prioridades urgentes

Tal como mencionado anteriormente, os acontecimentos perturbadores dos últimos dois anos levaram as pessoas a repensar as suas prioridades e a redefinir as suas responsabilidades. No que respeita especificamente à sustentabilidade, a investigação levada a cabo pelo IBV concluiu que a pandemia influenciou positivamente 93% dos consumidores globais auscultados, os quais acreditam que a sustentabilidade e o bem-estar podem e devem andar de mãos dadas. Ao escolher uma marca, cerca de 4 em cada 5 consumidores afirmaram que a sustentabilidade e os benefícios para a saúde e o bem-estar são importantes para eles e que estão dispostos a pagar um “extra” que ajude a proteger as pessoas e o planeta.

Embora a sustentabilidade tenha sido historicamente considerada como um bem de luxo, cerca de metade dos inquiridos declara estar disposto a pagar preços mais elevados (54%) -ou mesmo a aceitar um corte salarial (48%) – para contribuir para um futuro mais sustentável. E aproximadamente sete em cada 10 declararam estar mais dispostos a candidatar-se e a aceitar empregos em organizações que consideram ser ambientalmente sustentáveis e socialmente responsáveis. Mas se os números animam a verdade é que esta disponibilidade manifestada é, para muitos, simplesmente aspiracional. O estudo registou, e como tantos outros, o fosso significativo existente entre o dizer e o agir. Menos de 1 em cada 3 consumidores (31%) afirma que produtos sustentáveis ou ambientalmente responsáveis constituem a maior parte ou a totalidade da sua última compra.

Para o IBV, esta realidade significa que as empresas têm uma oportunidade valiosa de aproveitar esta procura não satisfeita, desde que ultrapassem com sucesso a sua primeira missão: convencer as pessoas de que estão a falar e a agir de forma genuína. Pouco menos de metade dos consumidores diz confiar nas declarações que as empresas fazem sobre a sua sustentabilidade ambiental, com mais de três quartos deste grupo a escrutinarem a sua actuação antes de tomarem uma decisão de compra.

Isto significa que as empresas precisam de fornecer informações transparentes e detalhadas sobre as suas iniciativas caso queiram efectivar uma ligação com estes mesmos consumidores. O IBV alerta também para a seguinte falha que deve ser colmatada com urgência: no relatório de 2001, nove em cada 10 empresas asseguram que irão trabalhar em várias iniciativas de sustentabilidade em toda a empresa, mas outro estudo concluiu que apenas 1 em cada 3 empresas está a medir o seu progresso. E, para o IBV, esta desconexão terá mesmo de ser resolvida em 2022.

Empresas devem apostar na construção de sistemas integrados que revolucionem os seus modelos de negócio

Como está mais do que provado que adoptar uma abordagem fragmentada da tecnologia já não é suficiente, as empresas precisam de reinventar holisticamente as suas operações para se aperceberem de todos os benefícios da transformação digital. Como escreve o IBV, os executivos devem concentrar-se na construção de sistemas integrados que revolucionem os modelos de negócio em 2022. E não podem ter medo de “falhar no futuro”, uma vez que correr riscos é o que conduz às recompensas impulsionadas pela tecnologia.

De facto, o estudo em causa concluiu que as empresas que não penalizam o fracasso gozam de um aumento de receitas de 10% no contexto da adopção das novas tecnologia e da transformação digital. O IBV dá o exemplo do gigantesco retalhista Kroger que introduziu tecnologia exponencial em todas as suas operações para responder às mudanças visíveis no comportamento dos consumidores quando estes fazem as suas compras. No início de 2021, a empresa lançou um programa-piloto de um carrinho de supermercado inteligente chamado KroGO, similar ao Dash Carts Amazon introduzido em 2020. Os carrinhos inteligentes utilizam tecnologia de visão computorizada para adicionar itens às contas dos clientes à medida que estes são colocados no carrinho, sem necessidade de “scanning”. O IBV acrescenta ainda que em Outubro de 2021, o retalhista anunciou também que iria abrir dois centros automatizados de atendimento ao cliente para aumentar a sua capacidade de entrega on-demand.

E a verdade é que a Kroger não está sozinha. O estudo demonstra também que empresas de todos os sectores estão a apostar nas capacidades tecnológicas necessárias para apoiar os seus negócios. Em resposta à COVID-19, quase 2 em cada 3 (64%) organizações mudaram uma boa parte das suas actividades de negócio para a nuvem. Na actualidade, a percentagem ascende aos 97%, com 78% das empresas a adoptarem igualmente aplicações de inteligência artificial. Adicionalmente, começam a ser bastante visíveis os dividendos recolhidos por estes investimentos. O IBV cita um estudo que concluiu que, em 13 indústrias, os “grandes adoptantes” de tecnologia beneficiaram de um prémio extra de receitas na ordem dos 7 pontos percentuais, retirando os maiores benefícios da Internet das Coisas (IoT), da inteligência artificial (IA) e da nuvem. Também os que investiram em ecossistemas e em inovação aberta obtiveram um aumento de receitas médio na ordem dos 40%.

A aposta na cibersegurança não só é uma prioridade, como impulsiona a colaboração e a inovação

Enquanto as tecnologias baseadas na nuvem, as plataformas e os ecossistemas expandem o alcance de uma organização e criam novas oportunidades de inovação, também introduzem novas ameaças. De facto, a investigação do IBV revelou que sete em cada 10 organizações são incapazes de determinar a segurança dos dados que se movem através de múltiplos ambientes “em nuvem”.

Não é surpresa, então, que o mesmo relatório tenha descoberto que mais de 90% dos incidentes cibernéticos tiveram origem na nuvem. Esta vulnerabilidade deve-se a uma incapacidade de adaptar as práticas de segurança a um ambiente mais aberto, uma vez que 92% das organizações não têm capacidade para viabilizar e alargar com segurança novas capacidades baseadas na nuvem aos seus parceiros internos e externos. À medida que as empresas expandem a sua pegada na nuvem para permitir o trabalho remoto, integrar cadeias de fornecimento e racionalizar as experiências dos clientes, é imperativo que desenvolvam em paralelo uma abordagem mais cautelosa nos seus sistemas de cibersegurança.

Desta forma, é crescente o número de empresas que estão a adoptar o modelo Zero Trust (confiança zero), uma abordagem preventiva da segurança que assume que os actores maliciosos estão em todo o lado. Este modelo requer autenticação e verificação para cada troca de valor, o que permite às empresas abrir as suas “fronteiras” de forma mais segura. Redes em nuvem abertas e seguras podem criar um ciclo virtuoso que impulsiona a inovação e a colaboração. Por exemplo, três em cada cinco líderes que adoptaram esta “confiança zero” garantem que a sua abordagem de segurança permitiu uma transformação digital segura e mais de metade (54%) afirma ter aumentado a confiança e as ligações seguras no que respeita a parceiros externos, em comparação com cerca de 1 em cada 3 nas demais empresas.

A evolução das práticas de segurança para a era da computação em nuvem também ajuda as organizações no sentido de produzirem melhores resultados, o que explica o facto de que as organizações com práticas de segurança mais maduras superaram em mais de duas vezes o desempenho dos seus pares, tanto em termos de crescimento das receitas como de rentabilidade.

 

 

Editora Executiva